A enfermagem amplia sua participação na coordenação do cuidado, na gestão da saúde e no uso de tecnologias digitais. Com a fragmentação da jornada do paciente e a necessidade de otimizar recursos, a formação dos profissionais passa a exigir raciocínio crítico, visão sobre todo o percurso assistencial e preparo multidisciplinar.
O relatório “Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil”, publicado pelo Ministério da Saúde em 2025, apontou a formação profissional como um aspecto sensível. Embora o número de vagas tenha crescido, aumentou a preocupação com a qualidade do ensino. Dados do levantamento “Perfil da Enfermagem no Brasil” indicam que enfermeiros com no máximo cinco anos de formados representam 38% da categoria.
Para Andrea Mohallem, coordenadora do curso de graduação e mestrado em Enfermagem do Ensino Einstein, a formação precisa acompanhar as transformações do setor e contar com professores qualificados. Ela cita a disciplina “práticas atuais”, criada para manter o conteúdo atualizado diante da renovação acelerada do conhecimento.
Navegação do cuidado e novas competências
A atuação do enfermeiro navegador, já consolidada em outros países, começa a ganhar espaço no Brasil, inicialmente na oncologia. Esse profissional realiza consultas, identifica barreiras clínicas e biopsicossociais, elabora planos individualizados, facilita encaminhamentos e acompanha consultas, exames e tratamentos. Também atua na comunicação entre paciente, família, equipe e instituição.
Vencelau Pantoja, primeiro-secretário do Conselho Federal de Enfermagem, afirma que o diferencial está no acompanhamento longitudinal da trajetória do paciente, inclusive entre diferentes unidades e níveis de atenção. Daniele Teche, enfermeira navegadora em oncologia e colaboradora do Instituto Vencer o Câncer, avalia que ainda existe distância entre a demanda das instituições e a formação oferecida na maioria dos cursos.
Entre as competências que precisam ganhar espaço estão a gestão de fluxos, o letramento em dados, o uso de tecnologias para monitorar pacientes à distância e a comunicação voltada à negociação de barreiras sociais. A formação também deve preparar o enfermeiro para interpretar indicadores, usar o prontuário eletrônico de forma estratégica e articular a rede de atendimento.
Saúde digital e expansão profissional
O domínio de ferramentas digitais passou a fazer parte das exigências básicas da área. Além de utilizar recursos como o prontuário eletrônico, o profissional precisa compreender seu funcionamento, reconhecer limitações e adotar uma postura crítica diante da tecnologia.
No curso do Ensino Einstein, disciplinas sobre inovação, novas tecnologias em saúde, gestão de dados e práticas atuais de enfermagem abordam temas como inteligência artificial e transformação digital. Mohallem também destaca a importância de campos de prática estruturados durante a formação.
A atuação dos enfermeiros se estende ainda a cargos de gestão, consultoria, treinamento, ensino e pesquisa. Helena Romcy, presidente da Associação Brasileira dos Enfermeiros Auditores, afirma que o profissional tende a atuar de forma mais analítica e conectada a dados, sem abandonar o olhar humano sobre o paciente.
Uma pesquisa conduzida pela McKinsey e pela Fundação Americana de Enfermeiros com 7.200 enfermeiros mostrou que 73% dos entrevistados defenderam a participação da enfermagem na concepção e na otimização de ferramentas de inteligência artificial. Para Mohallem, a apropriação dessas tecnologias deve ocorrer junto do raciocínio clínico e crítico, permitindo uma atuação mais integrada no cuidado.








