A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar em pessoas o estudo clínico de uma vacina contra a Covid-19 desenvolvida integralmente no Brasil. O produto será o primeiro a testar em humanos a plataforma de RNA mensageiro criada pela instituição.
A tecnologia poderá ser adaptada para diferentes vacinas e terapias. O RNA mensageiro leva às células uma instrução temporária para a produção de uma proteína. A estrutura usada para fabricar e transportar essa molécula pode ser preservada, enquanto sua sequência é alterada conforme o alvo, como vírus, parasitas ou células tumorais.
Investimentos e desenvolvimento
O governo destinou R$ 210 milhões a plataformas de RNA mensageiro no país. Os projetos envolvem a Fiocruz, o Instituto Butantan e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com ações voltadas à pesquisa, à infraestrutura e à produção. Os recursos integram a estratégia de fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), voltada à ampliação da capacidade nacional para desenvolver e fabricar tecnologias destinadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Na Fiocruz, os estudos começaram entre 2017 e 2018, inicialmente com foco em tratamentos para tumores. A pandemia de Covid-19 acelerou o trabalho, que passou pela organização da produção, pela criação de controles de qualidade e pelos estudos pré-clínicos necessários para a etapa clínica.
Em setembro de 2021, o Bio-Manguinhos foi escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para integrar os centros de desenvolvimento e produção de vacinas de RNA mensageiro na América Latina e no Caribe. A instituição também depositou um pedido de patente para a estrutura do RNA e para a nanopartícula lipídica que ajuda a levar a molécula às células.
Patrícia Neves, biomédica e líder do projeto de RNA de Bio-Manguinhos/Fiocruz, descreve a passagem da pesquisa para os testes clínicos como o “Vale da Morte” da biotecnologia. “É você tirar uma pesquisa da bancada e chegar efetivamente aos estudos clínicos e ao uso em humanos”, afirmou.
A vacina contra a Covid-19 já foi avaliada em animais. O estudo em pessoas deverá produzir dados sobre segurança e resposta imune. Essas informações poderão apoiar o desenvolvimento de outros produtos baseados na mesma plataforma. Para Patrícia, o país teria condições de criar uma vacina mais rapidamente em uma eventual emergência sanitária, com produção integral no Brasil.
Novas aplicações
A Universidade Federal de Minas Gerais criou o Centro de Competência em Terapias e Vacinas com RNA. Coordenada pela própria universidade, a estrutura recebeu R$ 60 milhões e reúne iniciativas para aproximar pesquisadores, empresas e startups. Além de vacinas, os projetos incluem terapias para doenças infecciosas e câncer.
Um dos trabalhos da UFMG envolve uma vacina contra a malária. A universidade desenvolve o imunizante em uma plataforma convencional e pretende aplicar o mesmo alvo ao RNA mensageiro. O foco é o parasita predominante na Amazônia, diferente do que prevalece na África e orientou vacinas contra a doença. A pesquisadora Santuza Teixeira, coordenadora do centro, disse que a intenção é levar o projeto aos primeiros estudos clínicos no Brasil e, depois, transferir a tecnologia para uma empresa com possibilidade de chegar ao SUS.
Na área de oncologia, pesquisadores da UFMG obtiveram resultados em camundongos ao usar RNA para controlar o crescimento de tumores. O trabalho ainda é uma prova de conceito e precisa avançar em outros modelos antes de qualquer estudo em humanos.
A Fiocruz também avalia aplicações contra tuberculose e leishmaniose, além de vacinas terapêuticas voltadas a antígenos tumorais. Outra linha experimental busca usar RNA para modificar células T dentro do organismo, em uma alternativa à retirada, alteração em laboratório e reinfusão de células exigidas por tratamentos com CAR-T. Segundo Patrícia, a estratégia poderia diminuir a complexidade e os custos desse processo caso seja bem-sucedida.
Dependência externa e formação profissional
Apesar dos avanços, a Fiocruz ainda depende de insumos e reagentes importados dos Estados Unidos, da Europa e da China para desenvolver e produzir vacinas e terapias de RNA. Entre as prioridades apontadas estão a criação de fornecedores nacionais e a aproximação da indústria brasileira com essa cadeia tecnológica.
A formação de profissionais é outro desafio. O país já conta com mão de obra qualificada em biotecnologia, mas o trabalho com RNA exige conhecimentos específicos. O Bio-Manguinhos passou a capacitar profissionais, e parte deles migrou para a indústria. A UFMG também prevê formar pesquisadores e aproximar a capacidade científica das universidades do desenvolvimento de produtos.
Santuza Teixeira avalia que a pandemia mostrou a dependência brasileira de tecnologias desenvolvidas no exterior. Com a chegada da plataforma da Fiocruz aos primeiros estudos em humanos e a expansão de pesquisas em outras áreas, o desafio passa a ser transformar a capacidade científica em vacinas e terapias produzidas no país.








