Economia

Tecnologia amplia transformação da odontologia no Brasil, do consultório ao SUS

IA, scanners, impressão 3D e automação avançam no setor, mas custo, formação profissional e desigualdade ainda limitam a adoção.

Tecnologia amplia transformação da odontologia no Brasil, do consultório ao SUS

O Brasil tem mais de 450 mil cirurgiões-dentistas registrados, o maior contingente do mundo, e concentra cerca de 20% desses profissionais. Nesse cenário, a odontologia passa por uma transformação impulsionada por inteligência artificial, scanners intraorais, impressão 3D e sistemas digitais de planejamento.

Projeções indicam que o mercado mundial de serviços odontológicos deve avançar de US$ 449,5 bilhões, em 2023, para US$ 610,4 bilhões até 2030. O envelhecimento da população, a procura por procedimentos estéticos e políticas de prevenção em saúde bucal estão entre os fatores associados a esse crescimento. Para o Brasil, a consultoria IMARC Group estima expansão média anual de 10,7% até 2034.

Digitalização dos consultórios

Os scanners intraorais substituem moldagens físicas em parte dos tratamentos, enquanto softwares e impressoras 3D são usados no desenvolvimento de próteses, guias cirúrgicos e outros dispositivos. Newton Sesma, professor associado da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o scanner é a etapa inicial para a adoção de um fluxo totalmente digital, seguido por recursos como a impressão 3D.

A robótica aparece como uma próxima fronteira. Na China e nos Estados Unidos, braços robóticos são testados em cirurgias de implantes dentários, com execução de etapas como perfuração e posicionamento dos implantes a partir de um planejamento digital e sob supervisão do cirurgião-dentista.

O investimento ainda é uma barreira. Scanners intraorais custam a partir de R$ 55 mil e podem superar R$ 200 mil. As impressoras 3D têm preços entre R$ 15 mil e R$ 80 mil. Além da compra dos equipamentos, clínicas precisam treinar equipes e reorganizar seus processos.

Lívia Moretti, da Dentsply Sirona para a América Latina, afirma que o desafio passou a ser integrar scanners, softwares e demais ferramentas a um fluxo clínico único. A educação continuada, segundo ela, é necessária para que os profissionais usem esses recursos na rotina.

A inteligência artificial tende, inicialmente, a apoiar tarefas administrativas, como organização de prontuários, coleta de dados e gestão de informações. Na avaliação de Sesma, procedimentos clínicos continuarão dependendo da capacidade técnica, da experiência e das decisões do profissional.

Ra Ringvee, CEO da DIO Inteligência Odontológica, diz que a IA também pode auxiliar na análise de radiografias, no planejamento de tratamentos e na comunicação com os pacientes. A empresa atende cerca de 1,5 mil clínicas no país. A tecnologia ainda pode reduzir diferenças na interpretação de exames e aumentar a previsibilidade dos tratamentos.

Redes privadas e atendimento público

O mercado brasileiro reúne cerca de 98 mil clínicas odontológicas registradas, segundo o Conselho Federal de Odontologia (CFO). Redes e franquias ampliaram sua presença, enquanto os planos odontológicos chegaram a 35,8 milhões de beneficiários em março de 2026, alta de 38% em relação a 2020, conforme dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Antonio Carlos Pereira, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), avalia que a entrada de fundos de investimento e a expansão das franquias mudaram a organização dos consultórios. O modelo aumentou a oferta de tratamentos privados e criou oportunidades para recém-formados, mas também pode reduzir a autonomia clínica e elevar a pressão por produtividade.

Na rede pública, a Política Nacional de Saúde Bucal Brasil Sorridente, criada em 2004, ampliou a atuação das equipes de saúde bucal e o atendimento especializado por meio dos Centros de Especialidades Odontológicas e dos Laboratórios Regionais de Próteses Dentárias. Atualmente, há mais de 33 mil equipes distribuídas pelo país.

A Lei Federal nº 14.572 incluiu a saúde bucal na Lei Orgânica do Sistema Único de Saúde (SUS) como dever do Estado. Segundo Sesma, a incorporação de tecnologias digitais à rede pública ainda depende de financiamento, capacitação e melhorias na infraestrutura das Unidades Básicas de Saúde.

Uma iniciativa prevê a incorporação do scanner intraoral Eagle Scan, desenvolvido e produzido no Brasil pela Dabi Atlante (Alliage), a kits destinados ao SUS em 350 municípios. A empresa informa que 500 equipamentos serão distribuídos para todos os estados e o Distrito Federal, acompanhados de impressoras 3D, computadores e outros insumos.

Desigualdade e formação profissional

Especialistas apontam que o próximo desafio é ampliar o uso das ferramentas, diminuir diferenças regionais e preparar profissionais para um atendimento mais integrado. O CFO também defende critérios rigorosos de qualidade, infraestrutura adequada e prática clínica supervisionada na expansão dos cursos de odontologia.

A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), registrou que cerca de 34 milhões de adultos perderam 13 dentes ou mais. Quase 44% dos adolescentes entre 15 e 19 anos têm cárie não tratada, e um em cada três brasileiros não consultou um dentista no ano anterior.

Para Pereira, esses dados mostram o risco de a inovação ficar concentrada no setor privado e aumentar a distância entre quem pode pagar e quem depende da rede pública. A adoção das tecnologias, segundo ele, precisa considerar políticas de equidade para evitar o aprofundamento das diferenças no acesso à saúde bucal.

Texto produzido pela Redação Horizonte do Dia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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