LINHARES — A água acumulada entre folhas de bromélias foi um dos alvos de uma expedição científica realizada na Reserva Natural da Vale. Esses pequenos ambientes, com variações de nutrientes, temperatura e disponibilidade de água, podem abrigar comunidades específicas de fungos e bactérias.
A equipe da Apoena Biotech também coletou plantas, solo e água em diferentes áreas da reserva. Localizada em Linhares, a unidade fica a cerca de 160 km de Vitória (ES). As amostras foram encaminhadas à sede da empresa, em Diadema (SP), onde serão isoladas, preservadas e analisadas.
O trabalho integra a quarta etapa de um projeto iniciado em 2022 para mapear microrganismos associados à biodiversidade brasileira. A empresa já realizou coletas em Fernando de Noronha (PE), na amazônia e na caatinga, segundo Patrícia Mendes, sócia-fundadora e diretora da Apoena.
Da coleta ao banco de dados
Os organismos reunidos vão compor uma base com informações genéticas para pesquisas e desenvolvimento. Até o momento, o banco tem 1.200 microrganismos, dos quais 400 foram identificados geneticamente e 55 estão em fase de rastreio para moléculas.
Antes das expedições, a equipe analisa estudos científicos para escolher plantas e ambientes com maior possibilidade de abrigar microrganismos de interesse. Uma ferramenta de inteligência artificial em desenvolvimento deverá ajudar a definir as prioridades.
Após o isolamento, os microrganismos são identificados por meio da comparação de sequências de DNA com bancos de dados. Os candidatos mais promissores passam por análises genéticas, simulações e testes de laboratório. A expectativa é que, depois dessas etapas, os organismos selecionados avancem para desenvolvimento e produção em escala.
“A ideia é manter um banco, uma biblioteca de organismos, disponibilizando essa informação e essas áreas não vão mais precisar ser acessadas”, disse Mendes durante a expedição. A base poderá ser consultada por interessados em estudar microrganismos com potencial industrial.
Aplicações possíveis
Entre as linhas de investigação está a busca por substâncias produzidas por organismos associados a corais que possam ser usadas contra a radiação ultravioleta em futuros protetores solares. A empresa também pesquisa se propriedades atribuídas a derivados da casca da copaíba e da andiroba vêm das próprias plantas ou de microrganismos que vivem em associação com elas.
Na mata atlântica, o solo também recebeu atenção por poder conter dezenas de microrganismos em simbiose com plantas e insetos. Para Juliana Santos Nakayama, bióloga, especialista em regulação gênica de microrganismos e gerente de pesquisa e desenvolvimento da Apoena Biotech, as condições úmidas da região podem favorecer estudos sobre controle biológico na agricultura.
Outra frente do projeto é investigar as características que ajudam determinadas plantas a resistir à seca e a temperaturas elevadas. Uma etapa prevista até o primeiro semestre de 2027 deverá coletar organismos na estação seca da caatinga e em uma região de transição entre pantanal, cerrado e chaco-paraguaio.
A expectativa é avaliar se microrganismos associados a plantas resistentes ao calor ou à falta de chuva podem contribuir para bioinsumos destinados a condições climáticas adversas. A coleta na reserva foi autorizada pelo Sisbio, sistema administrado pelo ICMBio, e o acesso ao patrimônio genético será cadastrado no SisGen, conforme a legislação brasileira.
“Com nosso laboratório de bioprospecção e biorreatores, a ideia é dar suporte para as empresas desde a busca lá no banco até a fabricação do produto final”, afirmou Mendes.








