Medicamentos usados no tratamento da obesidade, como semaglutida e tirzepatida, podem favorecer a perda de peso, mas não mantêm os resultados sozinhos após a interrupção. Uma revisão sistemática publicada no periódico BMJ mostrou que o peso tende a voltar gradualmente quando o tratamento termina, reforçando a necessidade de combinar os remédios com mudanças no estilo de vida.
A obesidade é uma doença crônica e, por isso, exige acompanhamento de longo prazo. De acordo com o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita, o reganho de peso depois da suspensão não representa falta de esforço do paciente, mas uma resposta biológica do organismo para recuperar o peso perdido.
As chamadas canetas emagrecedoras atuam sobre o hormônio GLP-1, relacionado às sensações de fome e saciedade. Ao reduzir sua ação, os medicamentos diminuem o apetite e contribuem para o emagrecimento. Com a interrupção, porém, mecanismos que favorecem o ganho de peso voltam a ser ativados.
O que mostrou a revisão
Os pesquisadores analisaram 37 estudos, que reuniram mais de 9.300 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os participantes haviam usado diferentes medicamentos, incluindo sibutramina, orlistate, liraglutida, semaglutida e tirzepatida.
Em média, o tratamento durou 39 semanas, seguido por um acompanhamento de mais 32 semanas depois da suspensão. Durante o uso dos medicamentos, os participantes perderam, em média, 8,3 kg, resultado superior ao observado nos grupos controle. Após o fim da medicação, eles recuperaram cerca de 0,4 kg por mês. Nesse ritmo, o peso inicial seria retomado em aproximadamente um ano e sete meses.
A revisão também identificou redução progressiva de benefícios metabólicos obtidos durante o tratamento. Melhoras na glicemia, no colesterol e na pressão arterial começaram a diminuir depois que os medicamentos foram interrompidos.
Hábitos ajudam a sustentar a perda
A mudança de comportamento pode potencializar o emagrecimento e ampliar as chances de manter os resultados no longo prazo. Uma alimentação com proteínas e fibras favorece a saciedade e pode reduzir o consumo de ultraprocessados. Exercícios regulares ajudam a preservar a massa magra, aumentar o gasto energético e melhorar a saúde cardiovascular.
O sono também participa da regulação dos hormônios ligados ao apetite. Já o controle do estresse pode ajudar a reduzir episódios de alimentação emocional.
Não é possível prever quais pacientes deixarão de recuperar parte ou todo o peso perdido após a suspensão. Segundo Rosenbaum, esses mecanismos biológicos estão relacionados à defesa do organismo contra a perda de gordura.
O reganho tende a ser menor entre pessoas que perderam menos peso, apresentavam obesidade menos grave e mantiveram hábitos saudáveis de forma consistente. “Os medicamentos são uma ferramenta muito eficaz no tratamento da obesidade, mas fazem parte de uma estratégia mais ampla”, afirma o endocrinologista.
Para o médico, o objetivo do tratamento não deve ser apenas uma perda rápida de peso, mas o controle de uma doença crônica por meio de um plano de longo prazo envolvendo paciente, médico e equipe multiprofissional.








