USHUAIA — A presença argentina no extremo sul voltou ao centro da agenda do governo Javier Milei com a reativação do projeto da Base Naval Integrada em Ushuaia. A iniciativa ocorre junto do anúncio de que o país pretende endurecer sanções e penas contra a exploração de petróleo nas ilhas Malvinas, sob controle britânico, medida prevista para sexta-feira (11).
A base fica em uma área considerada estratégica por sua proximidade com a Antártida e com o Canal Beagle, passagem natural entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Milei afirma que a instalação ajudará a consolidar a presença argentina no continente antártico e ampliará a atuação do país no Atlântico Sul.
Obra ainda está no início
Iniciado em 2022, durante o governo de Alberto Fernández, o projeto está paralisado. Dados oficiais indicam execução de 9,13% da obra. Até agora, a estrutura é uma plataforma de concreto de 2.500 m² em um terreno de 38 hectares, sem acesso público. O local fica a cerca de 5 km do centro de Ushuaia e próximo ao aeroporto da capital de Tierra del Fuego.
O governador Gustavo Melella, opositor de Milei, apoia a construção, mas afirma que ela não deve envolver outros países. Na sexta-feira, ele recebeu os ministros das Relações Exteriores e da Defesa, Pablo Quirno e Carlos Presti, para tratar do projeto.
A possibilidade de participação dos Estados Unidos alimenta controvérsias desde 2024. Naquele ano, Milei esteve em Ushuaia com Laura Richardson, então chefe do Comando Sul, e disse que a instalação transformaria “nossos países” na porta de entrada para a Antártida. Depois, o governo afirmou que não se tratava de uma base combinada.
O porta-voz presidencial Adrián Ravier declarou recentemente que o projeto é “cem por cento argentino”. Mesmo assim, autoridades norte-americanas continuaram visitando a região. Em abril de 2025, Alvin Holsey, então chefe do Comando Sul, percorreu instalações navais de Ushuaia e recebeu informações sobre rotas marítimas e operações antárticas. Em janeiro de 2026, uma delegação de 23 norte-americanos, entre eles sete congressistas, visitou a província.
Interesse internacional
A retomada também ocorre após Donald Trump indicar que poderia rever a neutralidade dos Estados Unidos na disputa pelas Malvinas. Ao mesmo tempo, Buenos Aires rejeita o plano petrolífero britânico Sea Lion, associado à exploração no arquipélago.
Para o cientista político Luis Castelli, diretor da consultoria Vox Pópuli, a importância de Ushuaia está ligada ao canal que conecta os dois oceanos e à proximidade da Antártida. Ele avalia que Washington busca conter o avanço chinês em áreas relacionadas a rotas marítimas e à logística antártica, enquanto a China amplia sua presença por meio de investimentos.
Em março, o embaixador chinês na Argentina, Wang Wei, visitou uma usina termoelétrica em construção nos arredores de Ushuaia. O empreendimento é financiado por capital chinês, com investimento próximo a US$ 80 milhões.
Daniel Guzmán, ex-combatente da guerra de 1982 e especialista em relações internacionais, considera que a instalação poderia ser usada para patrulhamento e apoio logístico a outras marinhas. O médico Rubén Rafael, 69, afirmou que a região passou a atrair atenção internacional.
A disputa pelas Malvinas, a possibilidade de mudança na posição dos Estados Unidos e o avanço de investimentos chineses colocam a futura base no centro das decisões argentinas sobre o Atlântico Sul e a Antártida. Por enquanto, o projeto permanece limitado à estrutura de concreto construída em Ushuaia.








