A Argentina prepara uma reação legal à exploração de petróleo nas proximidades das Ilhas Malvinas. Em discurso televisionado na quinta-feira, o presidente Javier Milei disse que enviará ao Congresso um projeto para ampliar as sanções contra empresas envolvidas em perfurações ou em outras atividades que afetem os recursos naturais argentinos.
O anúncio colocou o campo petrolífero Sea Lion no centro da disputa. Localizado ao norte das ilhas, o projeto é operado pela Navitas Petroleum, que tem a participação majoritária, enquanto a Rockhopper Exploration detém 35%. As duas empresas afirmaram na sexta-feira que possuem licenças válidas para a exploração e que não acreditam que as declarações de Milei afetem o empreendimento. As ações das companhias, porém, caíram na sexta-feira.
A Argentina não administra o arquipélago e, por isso, não consegue impedir diretamente as perfurações. O país reivindica a soberania sobre as Malvinas há quase dois séculos e perdeu uma guerra contra o Reino Unido em 1982. O governo britânico afirmou na sexta-feira que sua posição sobre o território era “inabalável”.
Milei antes defendia a diplomacia, em vez do confronto, para tratar da questão. O presidente também propôs a criação de um conselho de segurança nacional voltado à coordenação das políticas de segurança aeroespacial e marítima. Ele prometeu ainda mais recursos para uma base naval na Terra do Fogo, província mais ao sul da Argentina e ponto de acesso estratégico às Malvinas e à Antártida. O governo não divulgou detalhes adicionais do projeto de lei.
A mudança recebeu apoio de parte da oposição e de argentinos ouvidos em Buenos Aires. Mariana Hamicha, contadora de 49 anos, afirmou que a postura sinaliza uma defesa dos interesses do país. “Acho que assumir uma postura firme, especialmente no que diz respeito à exploração por empresas estrangeiras e à extração de petróleo, pode ser uma forma de traçar um limite”, disse.
O ex-secretário de assuntos internacionais da Defesa Juan Battaleme avaliou que Milei entendeu que “este é o momento de agir”. Para a pesquisadora Candela Mascetti, da Escola Superior de Guerra em Buenos Aires, as declarações representam uma mudança em relação às críticas de que o presidente não dava atenção suficiente às Malvinas. “Não acho que ter uma base naval implique um chamado às armas”, disse.
A iniciativa também ocorre após Donald Trump sugerir que os Estados Unidos poderiam rever a posição neutra na disputa, citando frustração com o apoio limitado do Reino Unido às operações militares lideradas pelos EUA no Oriente Médio.
A pressão política sobre Milei inclui críticas de veteranos da Guerra das Malvinas e da oposição de esquerda. Eles questionaram elogios do presidente à ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, cujo governo derrotou a Argentina no conflito, e sua afirmação de que os habitantes das ilhas poderiam “um dia decidissem votar em nós”.
Milei deve concorrer à reeleição em 2027 e tem aprovação de 36,8%, conforme pesquisa realizada em agosto pela Zuban Córdoba e Associados. Juan Grabois, líder de esquerda, chamou a mudança de “reviravolta de 180 graus”. Guillermo Carmona considerou as medidas positivas, mas insuficientes, e disse que Milei deveria pressionar o governo israelense. Autoridades de Israel não responderam ao pedido de comentário sobre as sanções.








