Ciência

Mamíferos ameaçados repetem rotas para reduzir riscos de caça, aponta estudo

Macacos-prego e elefantes evitam explorar novos caminhos em áreas de ameaça humana, alterando também o funcionamento dos ecossistemas.

Mamíferos ameaçados repetem rotas para reduzir riscos de caça, aponta estudo
Foto: Andrea Presotto/ECU

Mamíferos ameaçados de extinção podem mudar suas estratégias de deslocamento ao atravessar áreas associadas à presença humana. Um estudo internacional identificou que macacos-prego-do-peito-amarelo no Brasil e elefantes-africanos no Zimbábue passam a repetir rotas conhecidas em vez de explorar novos caminhos quando percebem maior risco de caça ou de conflitos com pessoas.

A adoção de trajetos familiares reduziria o esforço cognitivo empregado na navegação e permitiria que os animais mantivessem mais atenção na vigilância do ambiente. “Nossos estudos sugerem que algumas espécies optam por estratégias de navegação que demandam menos atenção ao caminho em si”, afirmou Andrea Presotto, professora da East Carolina University e primeira autora do artigo publicado em junho na revista Scientific Reports.

Como os animais mudam seus caminhos

Os pesquisadores acompanharam dez elefantes-africanos com coleiras capazes de transmitir sua localização em Victoria Falls, no Zimbábue. Também monitoraram um grupo de macacos-prego-do-peito-amarelo na Reserva Biológica de Una, no sul da Bahia. Esse grupo tinha entre 32 e 37 indivíduos, que foram acompanhados por dois anos com localização georreferenciada por GPS.

No caso dos macacos, os animais evitavam alterar as rotas em locais onde haviam ocorrido eventos traumáticos. Os elefantes apresentavam comportamento semelhante em áreas nas quais a caça é permitida ou onde poderiam ocorrer conflitos com humanos, incluindo lavouras e cidades.

Os macacos-prego também permaneciam menos tempo em áreas consideradas perigosas, mesmo quando esses locais ofereciam mais biomassa vegetal e invertebrados para alimentação. Em uma formação agroflorestal conhecida como cabruca, os animais ficavam mais silenciosos, apesar da presença de alimentos importantes, como cacau, dendê e jaca, porque a área também era frequentada por caçadores.

Os elefantes, por sua vez, podiam escolher caminhos mais difíceis, como brejos e rios, nos quais o acesso de caçadores seria restrito. Para Andrea Presotto, criar uma rota em uma área alagada pode ser vantajoso para esses animais porque a passagem humana é mais difícil.

Efeitos sobre os ecossistemas

A concentração dos animais em determinadas rotas pode afetar serviços ecossistêmicos. Os trajetos evitados pelos elefantes deixam de receber as alterações provocadas pelo pisoteamento e o aporte de nutrientes e sementes presentes nas fezes.

Ao se concentrarem nos mesmos caminhos, porém, os elefantes também podem impedir a regeneração da vegetação desses locais, já que provocam grande destruição nas áreas por onde passam. Os macacos-prego-do-peito-amarelo podem deixar de dispersar sementes das espécies que consomem nas regiões evitadas por medo de caça.

Patricia Izar, professora do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e coautora do estudo, explica que a chamada paisagem do medo corresponde à percepção de risco associada a cada parte do ambiente. Alguns locais são percebidos como mais seguros e outros como mais perigosos, conforme a chance de encontro com predadores ou caçadores.

Segundo os pesquisadores, essas mudanças podem reduzir a diversidade de comportamentos transmitidos entre gerações, como técnicas para obter alimento e formas próprias de vocalização. O trabalho integra um projeto financiado pela FAPESP e teve apoio adicional por meio de bolsa de doutorado para Priscila Suscke Gouveia, coautora do estudo.

Texto produzido pela Redação Horizonte do Dia com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

NewsletterCinco leituras por manhã.

Mais lidos

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5