Relatórios das Nações Unidas apontam que políticas integradas para combater as mudanças climáticas e a poluição do ar podem salvar vidas, reduzir danos ambientais e gerar ganhos econômicos. Um estudo estima que cada 1 dólar (0,86 €) investido em medidas para o clima e o ar limpo pode proporcionar um retorno de 15 dólares (12,92 €).
O cálculo está em um relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) e pela Coligação para o Clima e o Ar Limpo (CCAC) em 7 de setembro. O documento considera benefícios para os sistemas de saúde, a produtividade e a redução de prejuízos provocados pelas mudanças climáticas.
Fumaça de incêndios amplia os riscos
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou que incêndios florestais e ondas de calor associados às mudanças climáticas estão piorando a qualidade do ar. O aquecimento global favorece eventos mais intensos, capazes de liberar partículas microscópicas na atmosfera.
Entre elas está o material particulado PM2,5, formado por partículas e gotículas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro. Por alcançar regiões profundas dos pulmões e a corrente sanguínea, esse poluente representa risco à saúde. Ele também é emitido por indústrias que usam combustíveis fósseis, pela agricultura, pelo aquecimento doméstico, pelos transportes, por tempestades de poeira e por incêndios.
A OMM afirmou que as partículas produzidas pela queima da vegetação podem ser mais tóxicas do que as liberadas por outras fontes, como os escapamentos de automóveis. Levadas pelo vento, elas afetam pessoas e animais mesmo longe das áreas atingidas pelo fogo.
Os modelos de risco que consideram apenas a concentração total de PM2,5 podem subestimar em até 93% as mortes relacionadas aos incêndios florestais, segundo a organização. Um estudo citado no boletim da OMM indica ainda que os episódios extremos de fumaça triplicaram no mundo desde a década de 1990 e contribuíram para quase 100 mil mortes adicionais por ano entre 2010 e 2018. O número pode estar subestimado.
Ozônio e partículas também preocupam
O ozônio próximo ao solo se acumula quando há temperaturas elevadas, pouca circulação atmosférica e radiação solar intensa. A OMM relacionou esse processo a ondas de calor recentes na China, na Europa e no sudeste dos Estados Unidos. A exposição maior ao poluente pode provocar dezenas de milhares de mortes prematuras adicionais, principalmente por doenças respiratórias.
A organização também defendeu o monitoramento mais amplo de aerossóis, incluindo carbono negro e microplásticos, além de partículas finas e ozônio. Esses poluentes estão disseminados, mas ainda não são acompanhados de forma suficiente, apesar dos impactos potenciais sobre os ecossistemas.
O carbono negro, também chamado de fuligem, pode se depositar na neve e no gelo, reduzir a reflexão da luz solar e acelerar o derretimento. Já os microplásticos resultam da degradação de materiais plásticos pela luz solar ou por outros fatores e estão presentes no ar, no solo e nos oceanos.
Uma simulação do boletim estima a existência de 51 milhões de toneladas de microplásticos em terra e 22 milhões de toneladas no oceano. O relatório considera essencial acompanhar o transporte dessas partículas até áreas remotas, especialmente enquanto aumentam a produção de plástico e a má gestão de resíduos.
Medidas previstas até 2050
O relatório do PNUA e da CCAC avalia ações em seis setores: energia e combustíveis fósseis, indústria, transportes, agricultura e sistemas alimentares, cozinha e aquecimento residenciais e gestão de resíduos.
As medidas apresentadas poderiam cortar pela metade as emissões globais de dióxido de carbono até 2050 e evitar 144 milhões de mortes prematuras associadas à poluição do ar. Entre as propostas estão o uso de energias renováveis, a eficiência energética, os veículos elétricos, combustíveis marítimos com baixo teor de enxofre, o uso mais eficiente de fertilizantes, melhorias no tratamento de águas residuais e a redução gradual dos HFC.
Inger Andersen, diretora-executiva do PNUA, afirmou que o ar limpo deve ser tratado como um investimento ligado ao desenvolvimento, à saúde, à alimentação, à segurança energética e à estabilidade climática. Para Lorenzo Labrador, da rede Global Atmosphere Watch, qualidade do ar e mudanças climáticas precisam ser enfrentadas em conjunto.








