Um estudo publicado em 8 de setembro na revista Nature Human Behaviour associou transferências mensais de dinheiro para mães de baixa renda a sinais de um ritmo mais lento de envelhecimento biológico em seus filhos. A análise considerou crianças avaliadas quando tinham cerca de quatro anos, após suas famílias receberem valores diferentes durante a primeira infância.
A pesquisa integra o Baby's First Years, um ensaio clínico randomizado criado para investigar efeitos da redução da pobreza nos primeiros anos de vida. Entre maio de 2018 e junho de 2019, mil mães e seus recém-nascidos foram recrutados em maternidades de quatro regiões dos Estados Unidos: Nova Orleans, Omaha, Minneapolis e St. Paul, chamadas de “Cidades Gêmeas”, além de Nova York.
As participantes foram distribuídas aleatoriamente. Um grupo de 400 mães recebeu US$ 333 por mês, enquanto 600 mães receberam US$ 20 mensais. Os pagamentos não tinham condições de uso, e as famílias podiam decidir como gastar o dinheiro.
Diferenças epigenéticas
Os pesquisadores examinaram dados coletados quando as crianças estavam com cerca de quatro anos para verificar possíveis mudanças no epigenoma. O termo se refere ao conjunto de mecanismos que regula a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA. Experiências como exposição à poluição e ao tabagismo, além de hábitos alimentares, podem influenciar essa atividade.
As crianças cujas mães receberam o valor mais alto apresentaram uma pequena diferença em um indicador epigenético associado a um ritmo mais lento de envelhecimento biológico e a melhores resultados de saúde na vida adulta. Como a divisão entre os grupos ocorreu por sorteio, os pesquisadores atribuíram a diferença observada às transferências, e não a outros fatores.
“É notável observar um impacto causal das transferências de dinheiro”, afirmou Laurel Raffington, principal autora do estudo e líder do grupo de pesquisa do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano. Para ela, o resultado reforça que o combate à pobreza infantil também pode ser tratado como uma questão de saúde pública.
As medidas analisadas podem reagir a estresse, alimentação e envelhecimento. Em adultos, elas já foram relacionadas ao ritmo de envelhecimento e ao surgimento de determinadas doenças. O estudo se diferencia por ter avaliado transferências financeiras sem intervenções nutricionais ou psicossociais associadas.
Pesquisas anteriores do Baby's First Years indicaram que as mães que receberam mais dinheiro aumentaram os gastos e o tempo dedicado a atividades com os filhos pequenos. Também houve possível aumento de padrões de atividade cerebral rápida relacionados ao desenvolvimento cognitivo posterior. Não foram encontradas diferenças em outras medidas de saúde, desenvolvimento cognitivo ou comportamento infantil.
Limites dos resultados
Os pesquisadores afirmam que ainda não é possível concluir que as crianças envelhecerão mais lentamente ao longo da vida. As diferenças epigenéticas foram pequenas, e será preciso acompanhar os participantes para saber se elas persistirão durante o crescimento. Também permanece incerto se os sinais identificados aos quatro anos vão prever condições de saúde na idade adulta.
Entre as mães, não houve diferença no envelhecimento biológico entre as que receberam o valor mais alto e as que receberam o menor pagamento mensal. Segundo os autores, esse resultado é compatível com a hipótese de que o efeito esteja ligado ao período de desenvolvimento da primeira infância.
Para Kimberly Noble, da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, a persistência dessas diferenças poderia ajudar no desenvolvimento de intervenções para a primeira infância voltadas à redução de desigualdades em saúde, no surgimento de doenças e na longevidade.








