A Universidade Federal do Rio de Janeiro concedeu diplomação póstuma a Ana Maria Nacinovic, estudante de Artes Decorativas morta pelas forças de segurança durante a ditadura. A cerimônia, realizada no dia 9 de setembro, homenageou 26 alunos e professores da universidade mortos e desaparecidos no período.
Como parte da iniciativa, a Comissão de Memória e Verdade da Escola de Belas Artes localizou documentos acadêmicos de Nacinovic e uma pintura inédita, cuja assinatura havia sido parcialmente apagada. A comissão foi criada em 2023 para investigar crimes e violências sofridos pela comunidade acadêmica da instituição durante o regime ditatorial.
Da formação artística à militância
Nascida no Rio de Janeiro em 1947, Nacinovic ingressou, em dezembro de 1968, no antigo curso de Artes Decorativas da Escola de Belas Artes da UFRJ. Ela havia sido aprovada em segundo lugar. No ano seguinte, abandonou os estudos diante do avanço da repressão e aderiu à luta armada.
Em 1969, com a instauração do AI-5, passou a atuar na Ação Libertadora Nacional, a ALN. Em São Paulo, participou de ações armadas em 1971 e 1972 e foi companheira de Carlos Eugênio Paz, conhecido como Clemente, que era o último comandante militar da organização.
Em setembro de 1971, Nacinovic foi a única sobrevivente de uma emboscada do DOI-Codi contra um comando da ALN na Rua João Moura, em São Paulo. Ela escapou das rajadas de metralhadora correndo em zigue-zague pela rua e, durante a fuga, indicou a agentes a direção do tiroteio.
No ano seguinte, foi morta aos 25 anos em uma emboscada na Mooca, ao sair de um restaurante. Há relatos de que seu corpo foi levado ainda com vida ao DOI-Codi antes de ser encaminhado ao IML. O caixão chegou lacrado ao Rio de Janeiro, escoltado por militares.
Uma análise pericial realizada em 1997 identificou uma fratura no fêmur esquerdo e três projéteis, enquanto o laudo original registrava dois. Fotografias examinadas posteriormente também apontaram lesões no seio, no ouvido e no pescoço. Mesmo depois de ser considerada oficialmente morta pelo governo militar, Nacinovic foi condenada à revelia a 12 anos de prisão em 1973.
Documentos e pintura
Nos documentos encontrados pela comissão, a estudante aparece com o nome de solteira. Na capa do envelope, há a inscrição “Faleceu em 1972”. A partir das investigações e do diálogo com familiares e especialistas, a comissão solicitou a retirada do sobrenome de casada Corrêa da diplomação honorífica.
O ex-marido, o capitão do Exército Carlos Augusto Albernaz Corrêa, teria destruído pinturas da estudante, praticado violência de gênero e ajudado as forças de repressão em sua perseguição. Como o assassinato ocorreu antes da lei do divórcio, ela não pôde retirar o sobrenome naquele período.
A obra foi localizada após a indicação do estudante Antonio Kuschnir. Segundo o professor Pedro Meyer, proponente da comissão, o quadro havia sido dado como presente de casamento a uma amiga de Nacinovic. Depois da morte da amiga, a filha dela doou a pintura a Kuschnir.
Meyer relaciona a obra à canção Até Pensei, de Chico Buarque, e observa semelhanças entre seu estilo gráfico e ilustrações de um jornal da ALN dedicado a poesia e imagem. Para ele, a recuperação da pintura ajuda a restabelecer a memória de Nacinovic como artista. “A pintura é emblemática para a reparação simbólica da sua memória”, afirmou.
A intenção da comissão é que o quadro seja doado a um acervo público, como o Museu Nacional de Belas Artes. O espaço foi sede da Escola de Belas Artes até 1975, quando a instituição foi transferida de local pelo regime militar.









