Uma cobertura de nacele que antes ficava no alto de uma torre eólica virou uma pequena casa. O projeto da empresa sueca Vattenfall com o estúdio de design Superuse transformou o componente, que abriga equipamentos mecânicos e elétricos, em um espaço com cozinha, banheiro e sala de estar.
A estrutura tem quatro metros de largura, 10 de comprimento e três de altura. Também recebeu bomba de calor, painéis solares e aquecedor solar de água. O protótipo foi apresentado na Dutch Design Week de 2024, em uma iniciativa voltada à reutilização de materiais com menor consumo de energia e de processos intensivos em emissões.
Reaproveitamento de pás
A Vattenfall também utiliza pás desativadas em projetos de construção. Depois de serem retiradas de operação em 2023, as 57 pás do parque eólico terrestre Nørre Økse Sø, na Dinamarca, foram usadas na fachada de um estacionamento de vários andares em Lund.
Outras aplicações incluem estruturas para painéis solares e esquis alpinos. A empresa afirma que esses projetos ainda não representam uma solução em larga escala, mas ajudam a testar aplicações, acumular experiência e estimular o mercado de soluções circulares.
Desde 2021, a Vattenfall proíbe o envio para aterros de pás, coberturas de naceles e cones de nariz. Quando é seguro, a prioridade da empresa é prolongar a vida útil dos componentes por meio de reutilização e renovação.
O desafio da reciclagem
Até 90 por cento da massa de uma turbina é formada por aço, cobre, alumínio e concreto, materiais considerados mais fáceis de reciclar. Já as pás concentram materiais compósitos, como fibra de vidro, fibra de carbono, resina epóxi, madeira de balsa, metais e aditivos, comprimidos em camadas.
Essas pás podem medir entre 50 e 100 metros e são projetadas para funcionar em condições meteorológicas extremas durante até 25 anos. A combinação que garante resistência também torna a separação dos materiais mais complexa. “Separar os materiais compósitos da resina exige processos especializados”, afirma Eva Julius-Philipp, diretora de Ambiente e Sustentabilidade da área de energia eólica da Vattenfall.
A empresa usa reciclagem mecânica para transformar o material das pás em aparas compósitas ou cargas para novos produtos. Também testa a pirólise, processo térmico que permite recuperar fibras e outros materiais secundários. Quando não é possível obter materiais reciclados de maior valor, os resíduos podem ser destinados à valorização energética ou ao coprocessamento em fábricas de cimento.
Metas e regras na Europa
A Vattenfall trabalha para alcançar 100 por cento de circularidade dos materiais compósitos até 2030. Um dos obstáculos é a falta de um fluxo regular e previsível de pás desmanteladas, o que dificulta ampliar as soluções de reciclagem de forma econômica.
A primeira geração de grandes parques eólicos europeus deve chegar ao fim da vida útil nos próximos anos. Com isso, a demanda por alternativas escaláveis, eficientes em custos e com baixo consumo de energia tende a crescer.
A União Europeia ainda não proibiu o descarte de pás desmanteladas em aterros. Áustria, Finlândia, Alemanha e Países Baixos têm proibições nacionais vinculativas. A WindEurope defende que a regra seja adotada em todos os Estados-membros.
A Vattenfall também participa do desenvolvimento de pás projetadas para facilitar a reciclagem. As RecyclableBlades da Siemens Gamesa, usadas no parque eólico offshore Hollandse Kust Zuid, nos Países Baixos, têm uma resina que se dissolve em solução levemente ácida e em baixa temperatura. O processo separa a resina da fibra de vidro, fibra de carbono, plástico, madeira e metal sem afetar significativamente as propriedades dos materiais.








