NOVA DÉLHI — A cúpula do BRICS reúne líderes de China, Índia, Rússia e Irã em meio à intensificação dos conflitos no Oriente Médio e à alta dos preços globais da energia. O encontro busca projetar uma forma de liderança mundial sem a participação do Ocidente, mas ocorre sob baixa expectativa de que o grupo consiga intermediar uma saída diplomática para a crise.
Sediado pelo primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, o BRICS foi criado como um contrapeso ao Ocidente. O grupo tem Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul entre seus membros fundadores e passou a incluir Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
A reunião paralisou parte da capital indiana, com soldados armados nas ruas e barricadas bloqueando o centro. Cartazes com a imagem de Modi e o slogan “Juntos construímos, juntos nos erguemos” foram instalados nas rodovias que ligam o aeroporto.
Divergências dentro do bloco
A unidade defendida pelo grupo contrasta com as disputas entre seus integrantes. As tensões entre Irã e Emirados Árabes Unidos impediram a elaboração de uma declaração conjunta após uma reunião dos ministros das Relações Exteriores do BRICS. Os Emirados enviaram o xeque Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan, príncipe herdeiro de Abu Dhabi.
O bloco também enfrenta posições diferentes sobre a relação com os Estados Unidos e sobre os conflitos no Oriente Médio. Para Alexander Gabuev, diretor do Centro Carnegie Rússia-Eurásia em Berlim, o grupo tem dificuldade para conciliar países unidos pela oposição à hegemonia ocidental, mas com interesses que podem se chocar.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, defendeu ferramentas financeiras alternativas para reduzir a pressão das sanções ocidentais. “Isso é algo que não aceitaremos”, afirmou ao rejeitar a ideia de que os Estados Unidos devam decidir pelo mundo.
Modi, por sua vez, pediu a Pezeshkian que preserve a “liberdade de navegação e comércio”, em referência aos bloqueios no Estreito de Ormuz e no Mar Vermelho, que ameaçam as importações indianas de combustível. A posição reflete a tentativa do primeiro-ministro de manter relações estratégicas com diferentes potências, sem aderir à oposição de Rússia e Irã ao Ocidente.
China e Índia no centro das negociações
O presidente chinês, Xi Jinping, era esperado em Nova Délhi, mas não havia confirmação de uma reunião com Pezeshkian. O Irã é o parceiro estratégico mais próximo da China no Oriente Médio, embora Pequim também mantenha relações econômicas com países do Golfo Pérsico atingidos por ataques iranianos.
Um encontro bilateral entre Xi e Pezeshkian poderia indicar o grau de apoio chinês ao Irã sob pressão internacional. Xi também deve se reunir com Modi, em uma visita que sinaliza a estabilização das relações entre China e Índia. Os laços entre os dois países haviam se deteriorado após um confronto entre forças dos dois lados em uma área de fronteira disputada.
Para a África do Sul, a participação no BRICS também traz desafios diplomáticos. O país foi criticado pelo governo Trump por permitir que o Irã participasse de exercícios navais do grupo na costa sul-africana. O presidente Cyril Ramaphosa afirmou que a China conduziu os exercícios e que as águas sul-africanas foram escolhidas pela localização.
David Africa, analista de relações internacionais baseado na Cidade do Cabo, afirmou que autoridades sul-africanas ficaram desapontadas com a falta de consenso sobre conflitos no Irã e na Faixa de Gaza. A avaliação é que Pretória deve priorizar, na cúpula, temas econômicos como comércio, negócios e desenvolvimento.








