Mary Tifóide, personagem criada pela Marvel em 1988, foi inspirada em Mary Mallon, uma cozinheira irlandesa que viveu entre o fim do século 19 e o início do século 20. Nas histórias em quadrinhos, a vilã enfrenta principalmente o Demolidor e possui poderes como telecinese, pirocinese e controle mental.
A ligação entre as duas está no nome e na ideia de uma mulher transformada em ameaça. Mallon migrou ainda jovem para os Estados Unidos e carregava, sem saber, a bactéria Salmonella Typhi, causadora da febre tifóide. A doença não é a mesma que o tifo, embora os sintomas semelhantes tenham levado médicos a confundir as duas enfermidades no começo dos registros.
Mallon não apresentava sintomas e trabalhou em várias casas de Nova York. Uma investigação concluiu que ela havia infectado 57 pessoas, três das quais morreram. Em 1907, foi enviada para uma quarentena em um hospital localizado em uma ilha de Nova York. Ela só deixou o local em 1910, com a condição de não voltar a trabalhar como cozinheira.
Em outubro de 1914, usando o nome Mary Brown Jr., Mallon conseguiu emprego na cozinha de um hospital. No ano seguinte, um novo surto atingiu pacientes e funcionários: 25 pessoas foram infectadas e duas morreram. Ela retornou à ilha de North Brother e permaneceu em quarentena até o fim da vida. No local, desempenhou tarefas variadas e trabalhou como assistente de médicos. Morreu em 1938, depois de sofrer derrames.
A personagem e os estereótipos femininos
Nos quadrinhos, Mary Tifóide tem uma personalidade fragmentada. A identidade Mary é inocente, enquanto Tifóide é perigosa. Mais tarde, surge Bloody Mary, uma terceira personalidade que aparece em 1994, em uma história na qual a personagem começa a matar abusadores domésticos.
A personagem cresceu em um ambiente de abusos. Ainda criança, atacou o pai, provocando queimaduras e ferimentos graves. Depois, foi levada a uma instituição e submetida a experimentos, onde as personalidades Mary e Tifóide se desenvolveram plenamente.
A criadora Ann Nocenti afirmou, em 1998, que queria questionar diferentes imagens atribuídas às mulheres. “Acho que eu queria estilhaçar os estereótipos femininos”, declarou. A personagem reúne, em identidades distintas, a moça inocente, a vilã sexualizada e uma figura apresentada como feminista.
A história de Mary Mallon também foi marcada pela vilanização pública. Embora mais de 400 pessoas assintomáticas com a bactéria tenham sido identificadas na época, ela foi a única confinada. Sua condição de imigrante, mulher e pobre contribuiu para o tratamento que recebeu, segundo a interpretação apresentada na trajetória da personagem.
Mary Tifóide pode ser lida como uma alegoria das expectativas impostas às mulheres. Ao se dividir para corresponder a esses papéis, ela deixa de funcionar como um indivíduo integrado. A trajetória de Mallon estabelece um paralelo: mesmo trabalhando e cumprindo funções esperadas pela sociedade americana do começo do século 20, ela foi isolada e tratada como uma ameaça.








