PEQUIM — A inteligência artificial está ampliando a capacidade dos robôs de atuar em tarefas físicas, mas uma demonstração recente expôs uma limitação básica: depois de correr 100 metros em 8,64 segundos, o humanoide Tiangong Ultra não conseguiu parar e atingiu uma barreira. O tempo ficou quase 1 segundo abaixo do recorde mundial de Usain Bolt.
O episódio mostra a distância entre cumprir uma instrução delimitada e interpretar mudanças no ambiente. Na pista, o robô recebeu um objetivo claro. Fora de cenários controlados, porém, precisa reconhecer obstáculos, ajustar movimentos e responder a acontecimentos que não foram previstos no treinamento.
Da fábrica para ambientes humanos
A evolução já aparece na indústria. Em uma unidade da BMW, na Alemanha, o humanoide Figure 02, operado com uma ferramenta de inteligência artificial, transportou mais de 90 000 peças, acumulou 1 250 horas de funcionamento e participou da fabricação de mais de 30 000 carros.
A experiência reuniu sensores, visão computacional e inteligência artificial em uma máquina destinada a executar atividades no mundo físico. O avanço ocorre em paralelo à expansão da produção chinesa. A China responde por 97% dos robôs exportados globalmente e consome 85% desse volume.
Em Pequim, os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides apresentaram mais de 2 000 máquinas em 51 modalidades. O evento foi usado para demonstrar o esforço de colocar sistemas de inteligência artificial em corpos capazes de se mover e interagir com o ambiente.
O desafio da adaptação
Repetir uma operação conhecida é uma tarefa já dominada pela engenharia. A dificuldade aumenta quando o robô precisa compreender o que acontece ao redor e escolher uma resposta. Um humanoide em uma sala desorganizada teria de lidar, ao mesmo tempo, com uma criança correndo, um copo prestes a cair e uma instrução fora do manual.
“Robôs de fábricas, por exemplo, superam os humanos em uma escala de 1 000 vezes”, afirmou o especialista em robótica Damith Herath, da Universidade de Canberra. Para ele, o principal obstáculo é fazer a máquina aplicar um aprendizado obtido em uma circunstância a outra muito diferente.
Essa capacidade depende de percepção espacial, noções de física, coordenação motora e adaptação. O texto compara esse desempenho ao de uma criança de 3 anos, que ainda supera muitos humanoides avançados nesse tipo de resposta.
Os sistemas mais desenvolvidos tentam integrar visão, linguagem, raciocínio e movimento. A meta é que o robô receba uma ordem e encontre uma maneira de executá-la, em vez de apenas seguir uma sequência previamente programada.
Uso econômico e militar
A indústria também testa aplicações com finalidade militar. A Índia apresentou cães-robôs destinados ao campo de batalha, mostrando que a tecnologia pode ser avaliada não apenas pela capacidade técnica, mas pelo custo e pela velocidade em comparação com o trabalho humano.
O avanço dos robôs, portanto, envolve decisões econômicas e estratégicas. A questão passa a ser qual atividade pode ser transferida às máquinas e quais funções devem continuar sob controle humano. A inteligência artificial amplia o alcance desses sistemas, mas a capacidade de avaliar situações imprevistas ainda permanece como um dos principais limites.








