O caso do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, passou de uma investigação sobre suspeitas de fraude bilionária a uma crise política e institucional. O banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal, que apreendeu seu celular e encontrou conversas e registros envolvendo autoridades do Legislativo e do Judiciário, entre elas Alexandre de Moraes e Flávio Bolsonaro.
As apurações indicam que Vorcaro mantinha contatos com servidores públicos, políticos e dirigentes de instituições financeiras. Os investigadores analisam possíveis pagamentos, presentes, convites e benefícios relacionados a informações e ações favoráveis aos interesses do banco. A Operação Compliance Zero teve dez fases até julho.
Relações investigadas
Em maio, mensagens e um áudio mostraram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Vorcaro para a produção do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Segundo as informações reunidas na investigação, Vorcaro pagou R$ 61 milhões. Flávio afirmou que se tratava de patrocínio a um projeto privado e negou irregularidades.
A apuração aberta em julho busca esclarecer a origem, o uso e o destino dos recursos do filme, inclusive se parte do dinheiro foi utilizada para bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Documentos cujo sigilo foi parcialmente retirado indicam que Flávio é investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Ele pediu transparência total.
Outra investigação, relatada por Flávio Dino, envolve a produtora Karina Gama e o roteirista Mario Frias. A Polícia Federal apura se R$ 2 milhões em emendas parlamentares direcionadas por Frias foram usados em contratos não cumpridos pela produtora. Uma operação ordenada por Dino apreendeu materiais em endereços dos investigados.
Documentos liberados por André Mendonça também mostram contratos entre empresas de Vorcaro e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes. Um deles, no valor de R$ 131 milhões, teria sido editado pelo ministro, segundo a Polícia Federal. Outro, de R$ 50 milhões, previa pagamento em dinheiro ou com bens; uma proposta indicava que R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho e de um helicóptero.
As mensagens analisadas apontam contatos frequentes entre Moraes e Vorcaro, com encontros entre março de 2024 e agosto de 2025. Também há registros sobre uma viagem a Campos do Jordão, em dezembro de 2023, e sobre eventos jurídicos organizados pelo Banco Master em Londres. Moraes não se pronunciou. O escritório de Viviane Barci informou que não conduziu causas para Vorcaro no STF e que o contrato foi suspenso após a liquidação do banco.
Disputa no Supremo
Dias Toffoli supervisionava inicialmente os trabalhos no STF, mas o caso passou para André Mendonça em fevereiro, após suspeitas sobre o envolvimento de Toffoli em negócios com um fundo ligado ao Master.
Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de trechos de um relatório da Polícia Federal sobre a relação entre Moraes e Vorcaro. As mensagens indicam que os dois discutiram a possibilidade de uma operação contra o banqueiro, preso no aeroporto em 15 de novembro de 2025, quando tentava deixar o Brasil.
A divulgação dos documentos ampliou o conflito entre ministros. Moraes acusou Mendonça de abuso de autoridade com base em relatórios de inteligência da Polícia Federal, que não têm caráter probatório, e pediu que a Presidência do STF investigasse o relator. Mendonça determinou a destituição do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, sob o argumento de que a corporação monitorava ministros do Supremo. Após recurso de Andrei, Flávio Dino devolveu os cargos.
Na quarta-feira (9), Edson Fachin retirou de Moraes a relatoria do inquérito das Fake News e suspendeu decisões de Mendonça e Dino sobre a direção da PF. O presidente do STF marcou uma sessão para a terça-feira (15), sem informar se a discussão será aberta ou fechada.
Também foram liberados documentos de investigações envolvendo Ciro Nogueira, Cláudio Castro, Jaques Wagner e Thiago Miranda. A apuração sobre Wagner analisa possíveis vantagens financeiras relacionadas a Augusto Lima, ex-sócio do Master, incluindo repasses a uma empresa ligada a familiares e a compra de um apartamento de luxo em Salvador. Wagner nega irregularidades.
No caso de Ciro Nogueira, os investigadores analisam possível atuação do senador em favor de Vorcaro e do Banco Master no Congresso, além de indícios de vantagens financeiras ligados à chamada “emenda Master”. Nogueira negou as acusações.
A investigação envolvendo Cláudio Castro trata de possíveis irregularidades nos R$ 3,6 bilhões aplicados pelo Rioprevidência no Banco Master. A Polícia Federal aponta que teria ocorrido uma manobra na direção do fundo para viabilizar operações consideradas de alto risco. Castro também negou irregularidades.








