A avaliação de uma obra de arte combina pelo menos dois processos no cérebro: a identificação do que está representado e o prazer provocado pela imagem. Essa é a conclusão de um estudo publicado na revista científica Nature Communications, que investigou como as pessoas respondem visualmente a pinturas.
A pesquisa examinou 34 voluntários, que observaram 96 aquarelas tradicionais chinesas em um aparelho de ressonância magnética de 7T. Depois do exame, eles avaliaram como cada pintura os fazia se sentir. Os pesquisadores usaram algoritmos de filtragem colaborativa, semelhantes aos mecanismos de recomendação de serviços como Netflix e Spotify, para encontrar padrões comuns nas respostas.
Duas dimensões da experiência estética
A análise identificou dois eixos principais. Um deles organizou as pinturas conforme sua semelhança com figuras ou paisagens, refletindo o conteúdo conceitual de cada imagem. O outro distribuiu as obras entre as menos e as mais apreciadas pelos participantes, indicando o valor hedônico, associado ao prazer sensorial.
Embora atuem em conjunto, as duas dimensões permaneceram relativamente separadas no cérebro. O conteúdo visual foi processado pelas vias responsáveis por distinguir, por exemplo, um rosto de uma cena. Já a avaliação do prazer envolveu regiões mais profundas relacionadas à recompensa.
Esse resultado ajuda a explicar por que a beleza pode parecer simultaneamente pessoal e compartilhada. Uma paisagem montanhosa enevoada da dinastia Song, a Mona Lisa e “Sun Rising Over Water”, de Joseph Mallord William Turner, podem provocar reconhecimento e interesse mesmo quando o observador não consegue explicar exatamente a razão.
Influência da formação artística
Os pesquisadores também observaram que a intensidade dessa organização cerebral variava de acordo com a experiência dos participantes em artes visuais. A diferença apareceu especialmente na chamada rede do modo padrão, associada à imaginação, à consciência, à autorreflexão e à construção de significado.
Os resultados indicam que o treinamento artístico pode modificar a maneira como o cérebro representa a beleza, além da influência da simples exposição. A pesquisa relaciona essa estrutura cerebral à conexão entre percepção, emoção e significado na apreciação da arte.
A neuroestética, área que estuda as respostas do cérebro à arte e à beleza, reúne abordagens voltadas à percepção, à recompensa e à imaginação. O estudo testou essas dimensões em conjunto e concluiu que a experiência estética não é registrada como um fenômeno único, mas como a combinação de diferentes processos neurais.








