O relatório de inteligência da Polícia Federal usado em decisões dos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes continha ressalvas sobre a confiabilidade das informações e declarava, no cabeçalho, ser um documento de trabalho, de difusão restrita e sem valor probatório. O material não era assinado e foi classificado por Mendonça como apócrifo ao fundamentar o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da PF.
O documento reunia questionamentos sobre a atuação de Mendonça e do Advogado-Geral da União, Jorge Messias. Moraes utilizou o conteúdo para apontar fortes indícios de possíveis crimes atribuídos a Mendonça na condução das investigações sobre o escândalo do INSS e do Banco Master.
Mendonça, por sua vez, afirmou que o relatório não apresentava timbre ou símbolo gráfico que permitisse verificar sua autoria e sua data de elaboração. A decisão também sustentou que o material indicaria monitoramento ilegal do ministro.
Categorias e ressalvas da PF
A PF dividiu as informações em três grupos. As documentadas eram extraídas diretamente de decisões judiciais; as reportadas vinham de relatos verbais de servidores; e as avaliadas correspondiam a juízos de valor formulados pelo analista responsável.
Uma das hipóteses levantadas dizia que uma investigação sobre Antônio Rueda, presidente do União Brasil, poderia ser usada como rota de acesso para atingir Davi Alcolumbre, integrante do mesmo partido. O relatório classificou essa possibilidade como avaliação do analista e atribuiu a ela grau de confiança baixo.
O documento também mencionou uma suposta estratégia de recomposição de forças no Tribunal. Nesse cenário, Alcolumbre aparecia como provável alvo estratégico de Mendonça. O texto relacionava a hipótese à resistência de Alcolumbre à indicação de Mendonça para o Supremo Tribunal Federal durante o governo de Jair Bolsonaro, em 2021, quando o senador presidia a Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
O relatório associou ainda o possível direcionamento a um suposto favoritismo de Alcolumbre para permanecer na presidência do Senado em 2027. Moraes tratou esse conteúdo, que a PF havia apresentado como juízo de valor, como um forte indício de conduta irregular de Mendonça.
Relatos sobre delações e autoridades
Outro trecho abordava perguntas que Mendonça teria feito sobre o andamento de negociações de acordos de colaboração premiada e sobre os elementos apresentados por possíveis colaboradores. A PF classificou a informação com grau de confiança de baixo a moderado porque o relato do servidor não havia sido formalizado.
O analista afirmou que esse era o trecho de maior gravidade e, simultaneamente, de menor sustentação documental. Na decisão de Moraes, porém, a ressalva sobre a confiança da informação não foi reproduzida. O ministro registrou que Mendonça teria participação efetiva nas tratativas relacionadas à Operação Sem Desconto e à Operação Compliance Zero.
O relatório também registrou que Mendonça teria considerado inadequada a proximidade de Andrei Rodrigues com o presidente da República e de Paulo Gonet, procurador-geral da República, com Gilmar Mendes, ministro do STF. Nesse ponto, o próprio analista indicou confiança de baixa a moderada, pois as informações dependiam integralmente de relatos não formalizados.
Na decisão que afastou Andrei Rodrigues, Mendonça afirmou que o material teria sido encaminhado ao ministro Moraes e usado para incluí-lo no Inquérito das Fake News. Ele citou um ofício enviado por Andrei Rodrigues às 18h45 do dia 01/09/2026. Moraes tratou o episódio com grau maior de crença e afirmou que Mendonça teria ameaçado afastar Rodrigues e transformar Gonet em testemunha.
Comparação entre operações
Moraes também considerou indício de má conduta uma suposta assimetria no tratamento de alvos do caso Master. O relatório comparou o intervalo entre os pedidos de medidas policiais e as decisões de Mendonça que autorizaram operações contra políticos.
A medida envolvendo o senador Jaques Wagner levou nove dias entre a solicitação e a decisão. No caso de Ciro Nogueira, o intervalo foi de 29 dias. A primeira operação contra o ex-governador do Rio Cláudio Castro ocorreu após 75 dias.
A PF avaliou que a diferença poderia sugerir relação entre o tempo de análise e o perfil do investigado. O documento, contudo, ressaltou que seria necessário considerar outras variáveis, como o período de vista à Procuradoria-Geral da República, o recesso e a complexidade de cada pedido. A comparação recebeu grau baixo de confiança por se basear em uma amostra reduzida e seletiva.
Moraes usou essa análise para sustentar a existência de indícios crescentes de falta de imparcialidade e de interferência na condução das investigações pelas autoridades policiais. A decisão determinou ainda o envio de toda a documentação ao presidente do STF, Edson Fachin, para as providências consideradas necessárias.








