BRASÍLIA — A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) pediu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se declare impedido de atuar na investigação sobre um relatório produzido pela Polícia Federal por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A entidade também defendeu o arquivamento do procedimento aberto pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
O relatório reúne informações de material apreendido na Operação Compliance Zero e menciona conversas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. O nome do procurador-geral aparece no documento, o que, para a associação, exige seu afastamento de medidas relacionadas aos fatos citados.
Questionamento sobre a via usada
Em nota divulgada neste sábado (5), a ADPF afirmou que os delegados e servidores responsáveis pelo relatório apenas cumpriram a ordem judicial, dentro dos limites estabelecidos pelo juízo competente. A associação avaliou que o controle externo da atividade policial, atribuição da PGR, não representa relação de hierarquia nem permite revisar decisões judiciais.
A entidade sustentou que eventual contestação à decisão de André Mendonça deveria ocorrer no próprio STF, e não por meio de uma investigação direcionada aos responsáveis pela execução da ordem. Para a ADPF, o procedimento transfere aos investigadores uma controvérsia que envolve a determinação judicial e pode produzir efeito intimidatório sobre a atividade policial.
A associação citou o art. 258 do Código de Processo Penal, que estende aos integrantes do Ministério Público regras de impedimento e suspeição aplicáveis aos juízes. O pedido é para que Gonet não pratique atos no caso, nem como fiscal da lei nem como responsável pelo controle externo, e para que os fatos revelados na Operação Compliance Zero sejam apurados sem seletividade quanto às autoridades envolvidas.
A ADPF informou ainda que representa mais de 2.300 Delegados e Delegadas de Polícia Federal e que prestará assistência aos associados atingidos por procedimentos instaurados nessas circunstâncias.
Procedimentos paralelos
Gonet comunicou na sexta-feira (4) ao presidente do STF, Edson Fachin, a abertura de um procedimento para analisar a elaboração do relatório. A iniciativa ocorreu, segundo a manifestação registrada no caso, porque André Mendonça não teria comunicado previamente a medida ao procurador-geral.
Ao instaurar o procedimento, Gonet determinou que a autoridade policial esclarecesse as circunstâncias da confecção da IPJ-A n. 3298613/2026, incluindo a possibilidade de ordem ou interferência externa que tivesse afetado o conteúdo do documento.
Também na sexta-feira, o Conselho Superior do Ministério Público Federal abriu um procedimento interno sigiloso para analisar a conduta de Gonet nas investigações do caso Master. A iniciativa partiu de deputados federais do partido Novo. O procurador-geral deve ser ouvido em cerca de dez dias, e o processo foi distribuído ao subprocurador Francisco Sanseverino.
Conteúdo do relatório
Produzido em 72 horas por determinação de André Mendonça, o documento tratou de contatos de Vorcaro com Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. Em relação ao procurador-geral, a Polícia Federal identificou conversas intermediadas por outra pessoa sobre eventos com whisky e charutos.
O relatório também registrou que Gonet teria pedido a Vorcaro o custeio da viagem do filho para um evento organizado pelo dono do Banco Master em Londres. O documento foi tornado público por Mendonça na última terça-feira (2), após a divulgação de trechos que mostravam a relação do ex-banqueiro com Moraes.
A nota da ADPF foi assinada em Brasília, em 5 de setembro de 2026.








