A transição para a eletricidade limpa pode influenciar simultaneamente o transporte, o aquecimento de edifícios, a indústria e a qualidade do ar, segundo uma pesquisa da Universidade de Exeter e do The Earthshot Prize. O estudo identificou 51 soluções com potencial para promover uma mudança rápida e transformadora no clima e na natureza nos próximos cinco anos. As medidas foram organizadas em cinco conjuntos prioritários, chamados de Earthshots.
A pesquisa foi divulgada em um cenário de alerta ambiental. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUE) afirma que a temperatura média global deve superar 1,5 °C provavelmente nos próximos anos, ultrapassando o limite previsto no acordo climático de Paris. O órgão afirma que os governos devem fazer com que esse período acima do limite seja o menor e o mais breve possível.
Eletricidade limpa e acesso à energia
A energia solar e a eólica representaram 30 % da eletricidade da União Europeia no ano passado, superando pela primeira vez a geração baseada em combustíveis fósseis. A produção solar no bloco chegou a 369 TWh, 20 % acima do registrado em 2025.
Até 2030, a energia solar deverá evitar 154 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano na União Europeia, volume equivalente às emissões de gases de efeito estufa dos Países Baixos em 2023.
O estudo aponta a expansão das redes elétricas, a reforma dos licenciamentos e o déficit de investimentos no Sul Global como obstáculos. A África concentra 60 % dos melhores recursos solares do mundo, mas recebe menos de 2 % do investimento global em energia limpa. África do Sul, Marrocos e Nigéria ampliam planos para produzir painéis solares localmente. Marrocos dobrou a produção para cerca de um gigawatt por ano; a África do Sul tem capacidade semelhante, e o Egito prepara projetos de escala gigawatt.
Cozinha limpa e proteção dos oceanos
Cerca de 2,1 bilhões de pessoas ainda dependem de combustíveis sólidos para cozinhar. Essa prática é apontada como a principal fonte de poluição do ar dentro das residências e uma fonte importante de carbono negro, conhecido como fuligem. O relatório afirma que sistemas solares pré-pagos e empresas de soluções de cozinha limpa estão ganhando escala na África Oriental e Austral. Na América Latina e em partes da Ásia, a mudança para o gás liquefeito de petróleo está praticamente concluída.
O estudo também destaca a recuperação de estoques pesqueiros e da biodiversidade em áreas marinhas protegidas quando as medidas de conservação são bem planejadas e aplicadas. O Tratado do Alto Mar entrou em vigor no início deste ano e permite a criação de uma rede interligada de áreas protegidas em águas internacionais, inclusive por votação quando não houver consenso.
Essas áreas cobrem mais de dois terços do oceano, quase 50 % da superfície do planeta. O tratado prevê ainda capacitação e transferência de tecnologia marinha para países em desenvolvimento. Pesca destrutiva, pesca ilegal, poluição, mineração dos fundos marinhos e acidificação dos oceanos continuam entre as ameaças citadas pela High Seas Alliance.
Cadeias produtivas e florestas tropicais
A expansão da demanda mundial por carne, especialmente bovina, é apontada por estudos como uma das forças centrais da destruição da floresta amazônica. Pesquisa da Universidade de Manchester concluiu que até 80 % da área desmatada é convertida em pastagens para gado. Falhas na fiscalização das cadeias de abastecimento permitem a continuidade do desmatamento.
O relatório Positive Tipping Points identifica compradores e financiadores de carne bovina, soja, óleo de palma, madeira, cacau e café como agentes com influência sobre as cadeias associadas à perda de florestas. O Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento pode alterar esse cenário, especialmente se estimular mudanças de mercado também na China, no Reino Unido e nos Estados Unidos.
Condições para a mudança
Os pesquisadores apontam três requisitos para que as soluções atinjam pontos de virada positivos: preço acessível, facilidade de acesso e atratividade. O relatório afirma que os cinco Earthshots são interligados e compartilham condições, infraestrutura e riscos.
Tim Lenton, professor da Universidade de Exeter, diz que é necessário liberar pontos de virada nos quais o progresso se alimente, os custos caiam com a expansão e a recuperação se torne autossustentada. Jason Knauf, diretor-executivo do The Earthshot Prize, afirma que a pesquisa oferece um plano para transformar ambição em ação e conduzir o planeta a uma recuperação rápida.








