ISFAHAN — Imagens de satélite analisadas pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS) indicam aumento significativo das obras na Montanha Pickaxe, uma fortificação subterrânea do Irã. A atividade alimenta a suspeita de que o local esteja sendo preparado para abrigar uma instalação de enriquecimento de urânio ou um refúgio nuclear.
A estrutura fica na cordilheira Zagros, na província de Isfahan, a quase 1,5 quilômetro ao sul do complexo de enriquecimento de Natanz. O complexo subterrâneo começou a ser construído em 2020, meses depois de uma explosão destruir uma fábrica de montagem avançada de centrífugas em Natanz. O ataque foi atribuído a Israel.
Estrutura e possível finalidade
A instalação foi escavada a cerca de 100 metros abaixo da superfície, em uma montanha formada por granito duro e denso. Segundo o governo iraniano, o local seria destinado à produção e à montagem de centrífugas avançadas.
Análises, porém, indicam que o espaço pode comportar mais do que uma fábrica de montagem. A estrutura teria capacidade para abrigar uma planta de enriquecimento de urânio de grau militar e uma fundição de urânio metálico, material que poderia ser moldado para componentes de armas.
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) nunca teve acesso ao local. Imagens mostram duas entradas de túneis, uma no lado leste e outra no lado oeste. A área é cercada por um perímetro duplo de segurança, formado por uma cerca e um muro com rota de patrulha, integrado ao perímetro de Natanz.
Em julho, a inteligência israelense afirmou que o Irã havia transferido milhares de centrífugas para túneis profundos da montanha. A avaliação também apontou que os equipamentos poderiam ser usados para enriquecer o estoque iraniano estimado em 440 quilos de urânio enriquecido a 60%, levando-o ao grau de armamento.
Obras continuam
De acordo com a análise do CSIS, as obras prosseguiram depois da Operação Midnight Hammer, em junho de 2025. Entre junho e setembro de 2025, o Irã concluiu a cerca de segurança ao redor da instalação, reforçou e ampliou entradas de túneis com portas de portal e acelerou as escavações.
O monitoramento por satélite desde 2020 identificou atividade em três fases nos cinco principais pontos de interesse e nas estradas que os conectam. As entradas dos portais sul e leste estavam mais reforçadas em julho de 2026 do que em setembro de 2025.
O CSIS também identificou sinais de remoção de material escavado. Esse padrão é compatível com a transição de uma etapa de corte para uma fase de construção e pode indicar que as obras avançaram para o interior da instalação subterrânea.
Dificuldades para um ataque
Especialistas em estratégia consideram difícil danificar uma estrutura instalada sob mais de 100 metros de granito. A bomba GBU-57, maior arma antibunker do arsenal dos Estados Unidos, consegue penetrar 18 metros de concreto ou 61 metros de terra.
As entradas dos túneis têm formato de curva em U. Esse desenho pode impedir que mísseis voem diretamente pelo corredor e reduzir as ondas de choque provocadas por explosões.
Uma análise do Instituto de Ciência e Segurança Internacional aponta que uma instalação subterrânea ainda depende de energia, ventilação, aquecimento, resfriamento, entregas e circulação de pessoas. Esses elementos poderiam representar vulnerabilidades em um eventual ataque.
Outras estruturas subterrâneas do programa nuclear iraniano, em Amad, Fordow e Shahid Boroujerdi, tinham dutos de ventilação e foram atingidas por ataques aéreos em junho de 2025 e março de 2026. Por isso, uma ação contra Pickaxe poderia mirar os dutos e as entradas abertas dos túneis.
Outra possibilidade seria atacar ou sabotar as entradas com forças terrestres. Uma estratégia desse tipo foi usada em Natanz, em 2020, quando explosivos teriam sido levados para dentro do edifício durante a construção.
Declarações do Irã
Na semana passada, Donald Trump disse a jornalistas que os Estados Unidos poderiam atacar a Montanha Pickaxe em breve.
O governo iraniano nega que exista uma instalação nuclear no local. Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, afirmou em julho que “nenhuma atividade nuclear está ocorrendo” na montanha e classificou as ameaças americanas como “um pretexto fabricado para agressão, destruição e sabotagem”.
Mehdi Mohammadi, conselheiro do presidente do Parlamento, descreveu a Montanha Pickaxe como “a instalação nuclear mais fortificada do mundo” e declarou que um ataque “transformaria a região em um inferno”. O comando militar conjunto iraniano alertou que qualquer ataque a instalações nucleares ou sensíveis ampliaria a guerra.









