O governo de Donald Trump mantém uma abordagem cautelosa sobre a regulamentação da inteligência artificial, mesmo após modelos da OpenAI e da Anthropic terem escapado de ambientes de teste e acessado sistemas de outras organizações. A administração tenta equilibrar a redução de riscos de segurança cibernética com a manutenção da liderança dos Estados Unidos diante da China.
A discussão ganhou importância antes de uma cúpula em Washington com o líder chinês Xi Jinping, na qual a segurança da inteligência artificial está entre os principais temas. Autoridades americanas temem que regras mais rígidas reduzam a vantagem dos EUA e dificultem investimentos tecnológicos de centenas de bilhões de dólares.
Trump assinou em 2 de junho uma ordem executiva que prevê a revisão, pelo governo, de modelos de IA compartilhados voluntariamente pelas empresas até 30 dias antes de seu lançamento. A diretiva também incentiva empresas do setor a trabalhar com o governo na escolha de parceiros confiáveis para obter acesso antecipado a sistemas avançados.
A ordem foi resultado de divergências dentro do governo. Uma versão inicial previa que as empresas compartilhassem seus modelos antes do lançamento. O vice-presidente JD Vance chegou a defender o uso da Lei de Produção de Defesa para obrigar companhias a divulgar informações e cooperar com agências de segurança nacional.
Disputa dentro do governo
De um lado, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o diretor nacional de Segurança Cibernética da Casa Branca, Sean Cairncross, defendem proteções mais robustas. Bessent discutiu com líderes de Wall Street os riscos para o setor financeiro e ajudou a elaborar uma proposta de órgão regulador independente para avaliar a segurança dos modelos de IA.
A estrutura seria semelhante à Autoridade Reguladora do Setor Financeiro (FINRA), com participação das empresas na definição de padrões. A proposta ainda está em elaboração.
No outro grupo estão o conselheiro de ciência e tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, e o ex-czar da IA, David Sacks. Eles argumentam que novas regras podem sufocar a inovação, concentrar poder nas maiores empresas e permitir que a China ultrapasse os Estados Unidos. Sacks também afirma que as leis de responsabilidade civil existentes seriam suficientes para estimular as empresas a reduzir danos.
Sacks rejeitou a criação de uma estrutura de autorregulação inspirada na FINRA e chamou de “uma mera cortina de fumaça” a proposta que, segundo ele, poderia prejudicar a inovação. Ele também se opôs ao que classificou como uma “FDA para IA”.
Modelos escapam de ambientes de teste
A pressão por medidas de segurança aumentou após a Anthropic informar, em abril, que seu sistema Mythos conseguia encontrar vulnerabilidades de computador até então desconhecidas. A empresa decidiu compartilhar o modelo apenas com parceiros de confiança.
Em outro episódio, funcionários da OpenAI disseram que agentes de IA se comunicaram por meio de um fórum de mensagens, atuaram em conjunto para escapar de sandboxes e invadiram outras organizações de forma autônoma. Entre os alvos estava o repositório de software da Hugging Face Inc., segundo as informações apresentadas no caso.
As violações provocaram reação de parlamentares dos dois partidos. O senador Jim Banks, republicano de Indiana, pediu que Bessent ampliasse a ordem de segurança cibernética para incluir modelos não divulgados, que ainda não foram apresentados ao público.
A diretiva assinada por Trump se concentra principalmente no uso de modelos já divulgados por agentes mal-intencionados para atacar infraestruturas críticas ou grandes empresas. Ela não trata diretamente da possibilidade de os próprios modelos iniciarem campanhas de ataque. Até o momento, não há indicação de que o presidente vá atualizar a ordem para atender à sugestão de Banks.
China e cooperação internacional
Nesta semana, três agências dos Estados Unidos acusaram desenvolvedores chineses, entre eles Moonshot AI, DeepSeek e Alibaba Group Holding Ltd., de desviar dados de modelos americanos para criar chatbots concorrentes. A China rejeitou as acusações e pediu conversas com os EUA sobre inteligência artificial.
Na semana passada, Lutnick e Kratsios concluíram um acordo não vinculativo com o G20 para adotar uma abordagem mais flexível na regulamentação da IA e de outras tecnologias emergentes. A União Europeia, porém, busca um acordo internacional para impedir que modelos realizem ataques cibernéticos sem que seus desenvolvedores percebam.
A vice-presidente executiva da Comissão Europeia para a soberania tecnológica, Henna Virkkunen, afirmou que a política americana para supervisionar sistemas avançados continua obscura e que os controles de exportação aplicados à Anthropic mostraram que as autoridades dos EUA não dispunham de outras ferramentas.
Trump tem destacado a disputa com a China e os benefícios da tecnologia. Questionado sobre a possibilidade de a IA levar à extinção da humanidade, respondeu: “Não, não tenho nenhuma”. Em outra declaração, disse: “Tenho receio de que, se não vencermos a corrida pela IA, ficaremos numa situação muito difícil”.
A indefinição permanece enquanto o governo e o Congresso discutem quais modelos devem ser abrangidos pela ordem e se sistemas chineses de código aberto serão testados. As perspectivas de mudanças substanciais na área de segurança continuam incertas, em meio às divisões políticas e à resistência de Trump a medidas que possam restringir a inovação.








