SÃO PAULO — A oferta de imóveis novos destinados à classe média atingiu o menor nível da série histórica no Brasil. Apartamentos entre R$ 500 mil e R$ 2 milhões, que já representaram mais da metade das unidades comercializadas, hoje correspondem a 18,9% dos lançamentos e 24,1% das vendas nas capitais.
O recuo ocorre há quatro anos consecutivos e está relacionado à combinação de juros elevados nos financiamentos, aumento dos custos de construção e maior endividamento das famílias. Com parcelas mais caras e renda comprometida por outras dívidas, parte dos compradores deixou de conseguir aprovação de crédito ou de concluir a aquisição.
Pressão sobre compradores e empresas
Esse mercado atende principalmente famílias com renda mensal entre R$ 10 mil e R$ 30 mil. Em geral, elas pagam de 20% a 30% do valor do imóvel como entrada e financiam o restante. De acordo com cálculos da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), cada aumento de 1 ponto porcentual nos juros reduz a capacidade de compra de aproximadamente 1,3 milhão de pessoas.
Os custos de materiais, serviços, mão de obra e terrenos também subiram. O preço médio dos imóveis avançou 16% nas principais capitais nos últimos 12 meses, conforme levantamento da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
Diante desse cenário, incorporadoras passaram a reduzir ou abandonar projetos voltados ao chamado médio padrão. Entre as empresas citadas estão Trisul, Tecnisa, Even, Mitre, Gafisa, Kallas, Setin e Moura Dubeux.
A Setin informou que deixou de desenvolver novos empreendimentos de R$ 600 mil a R$ 800 mil na cidade de São Paulo, com apartamentos de dois ou três dormitórios. A empresa passou a concentrar lançamentos no Minha Casa, Minha Vida e no alto padrão. A Kallas também avalia que a classe média está pressionada pelos juros, pelos custos de construção e pela escassez de terrenos, enquanto a Moura Dubeux reduziu os empreendimentos da marca Mood, com imóveis de R$ 500 mil a R$ 1 milhão, para cerca de 20% dos negócios.
Medidas do governo
A faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida foi criada em maio do ano passado para atender famílias com renda de até R$ 13 mil e imóveis de até R$ 600 mil. A modalidade oferece juros subsidiados de 10% ao ano, mas as contratações avançam lentamente. Nas demais faixas do programa, as taxas ficam entre 4,5% e 8,16% ao ano, o que torna esses projetos mais atrativos para as incorporadoras.
As empresas enviaram ao Ministério das Cidades, em junho, uma proposta para reduzir em 1 ponto porcentual os juros das faixas 3 e 4. O pedido também prevê ampliar a faixa 4 para famílias com renda de até R$ 21 mil e imóveis de até R$ 1,2 milhão. Não havia definição sobre a adoção da medida.
No fim do ano passado, o governo lançou um modelo de crédito imobiliário que reduz gradualmente os depósitos compulsórios da poupança para liberar recursos a novos empréstimos. O volume financiado aumentou neste ano, mas os juros permanecem entre 12% e 14% ao ano. Para a retomada do segmento, a avaliação apresentada é que será necessário reduzir de forma sustentável a Selic e melhorar as condições de financiamento.









