A oferta de crédito para empresas perdeu força no Brasil após um período prolongado de juros elevados, aumentando as dificuldades para o pagamento de dívidas e contribuindo para o crescimento dos pedidos de recuperação judicial. Para Alexandre Cruz, CEO e fundador da JiveMauá, bancos e mercado de capitais já não conseguem atender toda a demanda corporativa. “Não tem dinheiro para todo mundo”, afirmou.
A JiveMauá é uma gestora de investimentos alternativos com mais de 20 anos de mercado e R$ 27,4 bilhões de ativos sob gestão. Cruz explicou que, até o ano passado, os bancos incumbentes e o mercado de capitais ainda forneciam liquidez às empresas. Esse cenário mudou, segundo ele, principalmente desde o fim do ano passado e ao longo do primeiro semestre.
Bancos e mercado de capitais reduzem o ritmo
A taxa de juros permanece acima de dois dígitos desde março de 2022. No ano passado, os bancos incumbentes elevaram as carteiras de crédito tradicional em cerca de 9,2%. Considerando a Selic em 14% mais spread, esse avanço representou uma redução em termos reais.
No primeiro semestre, o crescimento dessas carteiras caiu para 8,1% a 8,2%. As emissões de instrumentos do mercado de capitais, como CRIs, CRAs, notas comerciais e debêntures incentivadas, recuaram entre 12% e 14%. Essas emissões haviam ajudado a compensar a menor expansão do crédito bancário no ano anterior.
A avaliação de Cruz é que nem os bancos nem o mercado de capitais estão oferecendo dívida suficiente às empresas que ainda apresentam condições de recebê-la. Nesse ambiente, mesmo companhias consideradas boas podem enfrentar dificuldades e pedir recuperação.
Onde aparecem as oportunidades
A escassez de liquidez altera a forma de analisar o crédito privado. Uma das estratégias da JiveMauá, nos fundos imobiliários, é financiar ativos considerados estratégicos para as empresas, especialmente no setor de logística. Quando um inquilino entra em recuperação judicial, a gestora pode ampliar sua posição, aproveitando a queda dos preços para buscar uma entrada mais baixa e um dividend yield maior.
Na família BossaNova, dedicada ao crédito privado, a gestora estrutura as próprias operações em vez de comprar créditos originados por terceiros. A decisão também funciona como um sinal de cautela: quando um banco com décadas de relacionamento e ampla presença deixa de emprestar para uma grande empresa, a interrupção pode indicar riscos que precisam ser avaliados.
Entre os eventos de crédito citados por Cruz estão GPA, Raízen, Oncoclínicas, Casas Bahia e Ambipar. Ele também mencionou episódios anteriores envolvendo Americanas, Marisa, Unigel e AgroGalaxy. As causas variam, segundo o executivo, entre possíveis fraudes, problemas de gestão e mudanças na macroeconomia.
A gestora procura reduzir a concentração ao estruturar as próprias operações. A avaliação é que investir em vários fundos de crédito não garante diversificação se eles estiverem expostos às mesmas empresas e caírem juntos diante de um evento de crédito.
Empresas e setores sob análise
Para passar pelo processo de avaliação da JiveMauá, uma empresa precisa gerar caixa suficiente para pagar o serviço da dívida e amortizar parte do principal. Depois disso, o prazo se torna um dos elementos centrais da análise. “Essa geração de caixa precisa ser suficiente para amortizar um pedaço da dívida e pagar o seu serviço com alguma tranquilidade”, disse Cruz.
A gestora demonstra preferência por infraestrutura, incluindo tecnologia, cabeamento, data centers, concessões, energia e mobilidade. A justificativa é a maior previsibilidade e a presença de ativos reais. O varejo é tratado com mais cautela. No agronegócio, mesmo após os efeitos da guerra na Ucrânia e da menor demanda chinesa, Cruz identifica possibilidades de investimento.
A atuação dos fundos de special situations
Os fundos de special situations, ou special sits, formam uma terceira frente de atuação da JiveMauá. Eles podem emprestar a empresas em dificuldade, mas ainda capazes de continuar operando, usando estruturas e garantias para alongar dívidas.
Outra possibilidade é comprar dívidas corporativas inadimplentes, conhecidas como NPL, com desconto e buscar a recuperação por meio do patrimônio pessoal do empresário avalista. A terceira estratégia combina a aquisição do crédito depreciado com a injeção de dinheiro novo e o apoio à reestruturação da companhia.
Cruz citou Americanas e Casas Bahia como exemplos de situações em que a reestruturação pode envolver a conversão de dívida em participação acionária. Para ele, os responsáveis por levar uma companhia à crise nem sempre são os mesmos que conseguirão recuperá-la.
O executivo resume o risco principal como falta de caixa. Uma dívida impagável pode ser reorganizada por ferramentas jurídicas que distribuam os custos entre credores, companhia e acionistas. Já a ausência de recursos para pagar fornecedores e funcionários pode impedir a continuidade das operações.
A entrada nesses ativos exige diagnóstico e paciência. A JiveMauá pode esperar de um, dois, três, quatro, cinco a seis meses para esclarecer o problema antes de investir. A precificação considera o pior cenário de geração de caixa depois de um pedido de recuperação judicial, incluindo a perda de clientes e fornecedores.
Como referência, Cruz citou a Foxx Haztec, reestruturada pela Jive e posteriormente listada como Orizon. A empresa passou de R$ 80 milhões de geração de caixa para mais de R$ 1 bilhão em um intervalo inferior a cinco anos. Segundo ele, nem todos os casos terão o mesmo resultado, mas também não precisam terminar em cenários piores.








