Um estudo da Málaga & Associados mostra que empresas de varejo e consumo chegam a um possível ciclo de queda da Selic com níveis diferentes de pressão financeira. Entre as 15 companhias mais pressionadas de uma amostra de 30, as despesas financeiras passaram de 5,1% da receita líquida em 2018 para 12,3% em 2026. No grupo das 15 menos pressionadas, a alta foi de 1,6% para 3,1%.
O levantamento analisou demonstrações financeiras de 30 empresas listadas na B3 entre 2018 e 2026. Os dados de 2026 foram anualizados a partir do período disponível. A amostra inclui empresas de varejo, consumo e segmentos adjacentes, como turismo, energia e agronegócio.
A Málaga comparou os resultados com uma margem operacional de referência de 5,3%, calculada a partir da média de cinco anos das 15 empresas com as maiores margens operacionais da amostra. Em 2026, a despesa financeira média das companhias mais pressionadas correspondia a mais que o dobro desse indicador.
Diferença entre os grupos
A despesa financeira das empresas mais pressionadas superou a margem operacional de referência em 2020 e permaneceu acima dela nos anos seguintes. Em 2026, o indicador variava de 4,8% a 23% da receita líquida nesse grupo. Das 15 companhias, 13 tinham uma relação superior à registrada em 2018. Americanas e Veste eram as exceções, embora já partissem de níveis elevados e estivessem em processos de reestruturação, segundo a Málaga.
Entre as empresas menos pressionadas, as despesas financeiras representavam de 1,3% a 4,7% da receita líquida em 2026. De acordo com o estudo, esse patamar ainda era coberto pela margem operacional do grupo.
A diferença aparece em exemplos individuais. Na CVC, as despesas financeiras subiram de 7,7% da receita líquida em 2018 para 23% em 2026. Na Marisa, passaram de 2,7% para 19%; no Grupo Casas Bahia, de 2,5% para 8,3%.
No grupo menos pressionado, o indicador era de 3,5% no Magazine Luiza, 2,5% na Raia Drogasil, 2,1% no Grupo Mateus e 1,6% na Lojas Renner em 2026.
Juros não explicam toda a diferença
Em agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano. Algumas instituições passaram a projetar novos cortes, e a XP revisou sua estimativa para 13,25% no fim de 2026.
Para a Málaga, porém, o aumento dos juros explica apenas parte da trajetória. Os dois grupos estiveram expostos ao mesmo ambiente geral de custo da dívida no Brasil, mas apresentaram resultados distintos. “A diferença entre os dois grupos está na estrutura de capital herdada e no modelo de negócio, não apenas na taxa de juros”, afirma a consultoria.
A CVC tinha despesa financeira de 23% da receita e margem operacional média de cinco anos de 4,9%. Na Marisa, os indicadores eram de 19% e 2,3%; no Grupo Casas Bahia, de 8,3% e 1,6%. Na Lojas Renner, a relação era de 1,6% para uma margem de 10%. Na Raia Drogasil, de 2,5% e 6,1%; no Grupo Mateus, de 2,1% e 5,9%.
A Málaga ressalta que essa comparação não mede, isoladamente, a solvência das companhias. Geração de caixa, liquidez, vencimentos e estrutura da dívida não fazem parte do indicador e são necessários para uma avaliação mais ampla.
Limites para a queda dos juros
O estudo considera possível uma redução gradual da Selic, mas afirma que empresas mais pressionadas não deveriam elaborar planos de recuperação baseados no retorno aos juros excepcionalmente baixos observados entre 2019 e 2021.
A consultoria estima que a dívida pública bruta poderá se aproximar de 100% do PIB nos próximos três a quatro anos. A projeção considera custo real do endividamento público próximo de 10% ao ano e crescimento real do PIB entre 2% e 3%. Sem superávits primários suficientes, a dívida tenderia a crescer mais rapidamente que a economia, na avaliação apresentada.
Para as empresas em recuperação ou desalavancagem, a Málaga recomenda reduzir a alavancagem antes que eventuais restrições de liquidez diminuam as alternativas. Entre os caminhos citados estão venda de ativos, aporte de capital dos sócios, conversão de dívida em participação societária, renegociação de taxas e prazos e recuperação extrajudicial ou judicial.
Em agosto, o Grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para reestruturar passivos de R$ 17,3 bilhões, depois de já ter passado por uma recuperação extrajudicial. Para a Málaga, uma eventual queda da Selic pode aliviar parte da pressão, mas não substitui medidas para adequar a estrutura de capital à geração da operação.








