O felino extinto Miracinonyx trumani ocupava uma área mais ampla do que se imaginava e tinha hábitos alimentares diferentes conforme o ambiente. No norte do continente, onde hoje fica o Canadá, há pelo menos 30 mil anos, o animal consumia peixes e outros seres capturados em riachos. Em Wyoming, no oeste dos Estados Unidos, os sinais químicos apontam para uma dieta baseada principalmente em herbívoros terrestres.
Os resultados fazem parte de um estudo publicado na última sexta-feira (4) na revista Current Biology. A pesquisa também concluiu que o chamado guepardo americano era mais próximo dos pumas do que do guepardo africano, apesar das semelhanças físicas associadas à corrida.
Para investigar a história evolutiva da espécie, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz analisaram DNA antigo de quatro espécimes. Três foram encontrados no norte do Canadá e um veio da formação Natural Trap Cave, em Wyoming. O material foi comparado com dados genéticos de outras nove espécies modernas de felinos.
A análise indicou que o M. trumani e o Puma concolor compartilhavam um ancestral. As linhagens se separaram há 2,6 milhões de anos. O felino viveu na América do Norte até o fim da última Era Glacial, quando foi extinto há aproximadamente 13 mil anos.
Os fósseis já mostravam membros superiores e pernas adaptados à corrida, características que lembravam as do guepardo. A genética, porém, apontou uma relação diferente. As descobertas ampliaram ainda a distribuição conhecida da espécie em cerca de 20 graus de latitude, até o atual território de Yukon, no Ártico canadense.
Além do DNA, os cientistas examinaram isótopos de carbono e nitrogênio preservados nos fósseis. Os exemplares de Yukon tinham alta concentração de nitrogênio, compatível com o consumo de animais aquáticos. O espécime de Wyoming apresentou valores semelhantes aos de predadores de topo que se alimentam sobretudo de herbívoros terrestres.
A população ártica também carregava uma mutação em um gene ligado ao ritmo circadiano. A alteração inativava essa função e pode ter ajudado os animais a regular os períodos de atividade e descanso em uma região onde a luz solar desaparece por metade do ano.
Molly Cassatt-Johnstone, primeira autora do estudo, afirmou que os dados disponíveis não permitem saber se os animais capturavam peixes vivos, comiam carcaças deixadas após a desova ou faziam as duas coisas. Para os autores, o nome popular guepardo americano é inadequado tanto por sugerir parentesco com o guepardo africano quanto por associar o corpo esguio do animal a uma única estratégia ecológica.









