PIEDADE — Uma empresa familiar responde por cerca de 90% da alcachofra produzida no Brasil. A produção está concentrada em uma área de 200 hectares dividida entre cerca de 50 produtores de Piedade, Ibiúna e São Roque, no interior paulista. Toda a colheita é destinada ao mercado interno, sem volume voltado à exportação.
A família Miyazaki iniciou o cultivo da planta em Piedade há mais de 60 anos. Atualmente, sob a marca Saibai, o negócio fornece alcachofras para quase todo o país. A produção do Sítio Miyazaki gira em torno de 20 mil caixas por ano, vendidas principalmente para São Paulo e distribuídas a outros estados pela Cooperativa Hortifruti Holambra.
Otavio Freitas Neves, produtor do sítio e da empresa Saibai Saladas, faz parte da quarta geração da família à frente da atividade. As primeiras mudas foram recebidas de um amigo dos Miyazaki, e a produção foi mantida como forma de preservar a história familiar. “Produzimos como uma recordação da nossa origem e também para manter a memória e a gratidão pelo gesto que promoveu muita felicidade para a nossa família”, afirma Neves.
Cultivo concentrado e exigente
A alcachofra é comercializada principalmente fresca, com o botão floral e parte da haste. O produto abastece feiras selecionadas, redes de varejo de maior poder aquisitivo e restaurantes especializados. Em menor escala, o coração da planta é processado para conservas, segmento que também recebe produtos importados de perfil mediterrâneo.
José Gustavo Quagliato Pereira, engenheiro agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) Regional Sorocaba, afirma que o cultivo em Piedade foi desenvolvido ao longo de décadas por imigrantes italianos e japoneses, sem conhecimento técnico prévio sobre adubação ou clima ideal. Esse processo ajudou a formar características próprias da produção local, como a preferência pela alcachofra roxa.
A planta exige clima com médias mais amenas, irrigação constante sem excesso, solo com drenagem, altitude, estações bem definidas e manejo manual. A safra costuma começar em julho e pode seguir até novembro, em condições favoráveis. O ciclo também pode ser antecipado com o uso de um hormônio natural.
A escassez e o custo da mão de obra especializada estão entre os principais desafios apontados por Pereira. Neves também cita a dificuldade de encontrar trabalhadores dedicados ao cultivo e a necessidade de ampliar o conhecimento do público sobre a alcachofra. A cadeia envolve diretamente mais de 1 mil trabalhadores, entre produtores familiares e contratados.
Alcachofra como atração turística
Piedade recebeu em 2025 o título de Capital Nacional da Alcachofra, por meio do Projeto de Lei 8.758/2017. A ligação entre a hortaliça e a cidade também é destacada por José Alexandre de Souza Furquim, engenheiro agrônomo e diretor da Associação Comercial e Industrial de Piedade.
A prefeitura criou o Roteiro Gastronômico da Alcachofra, realizado entre setembro e outubro. Nesse período, mais de 15 bares, pousadas e restaurantes oferecem pratos como fundo de alcachofra gratinado aos três queijos, saltimboca de frango e alcachofra, creme de alcachofra com camarão, pastel e sopa de alcachofra.
Mesmo fora da temporada, restaurantes mantêm receitas com a planta no cardápio. O Pouso e Gastronomia Ronco do Bugio, no Bairro dos Pires, oferece risoto de alcachofra. O estabelecimento usa o produto em conserva durante todo o ano e, quando há disponibilidade, trabalha também com a flor fresca.
Na Pastelaria Calçadão, o pastel de alcachofra foi criado há mais de 20 anos e se tornou um dos símbolos gastronômicos locais. A pastelaria foi fundada em 1996, depois que os pais de Lucas Takashi Kunitaqui voltaram do Japão. A receita passou entre gerações, com fornecimento de matéria-prima feito por integrantes da família Miyazaki.
O Sítio Miyazaki também estuda abrir grupos de visitação durante a safra. Recentemente, a família inaugurou o Empório da Alcachofra Saibai, com alcachofras em conserva, salgados e tortas congeladas.









