Brasil e Estados Unidos enfrentam um problema semelhante nas contas públicas: o pagamento de juros sobre a dívida passou a exercer pressão crescente sobre os governos, embora em escalas e condições distintas.
Nos Estados Unidos, a dívida pública chegou a 40 trilhões de dólares. Dados do fim de 2025 mostram que os juros consumiram 18,5% da arrecadação federal, a maior fatia desde 1991. O valor supera o orçamento total de defesa do país.
A exposição também aumentou em relação ao passado. A dívida em mãos do público correspondia a 44% do PIB americano 35 anos atrás e está prestes a superar 100% atualmente. Com isso, mesmo taxas de juros consideradas normais podem provocar impacto maior sobre as contas do governo.
Disputa por recursos
Empresas de tecnologia que investem em inteligência artificial passaram a disputar recursos com o governo no mercado de títulos. No primeiro semestre deste ano, elas emitiram centenas de bilhões de dólares em dívida para financiar data centers.
A competição ajuda a pressionar os juros dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, negociados perto de 4,8%. Analistas consideram 5% um limite psicológico. Uma permanência acima desse nível pode encarecer o crédito e ameaçar a sustentação do crescimento do setor de inteligência artificial.
No Brasil, a dívida pública bruta alcançou 82,5% do PIB em julho, o equivalente a 10,9 trilhões de reais, o maior nível em cinco anos. O indicador subiu quase 4 pontos percentuais neste ano, principalmente por causa dos juros, responsáveis por mais da metade do aumento.
A Selic, mantida em patamar elevado e com redução gradual, torna mais caro carregar a dívida. O mecanismo nos dois países é semelhante: quanto maior o endividamento e a percepção de risco, maiores tendem a ser os juros exigidos pelos investidores para comprar títulos públicos. Isso eleva a despesa financeira e pode ampliar ainda mais a dívida.
Os Estados Unidos têm maior poder econômico e emitem o dólar, moeda de reserva mundial, o que reduz, mas não elimina, a pressão imediata. O Tesouro americano dobrou recentemente o volume de recompra de títulos de longo prazo para tentar aliviar os juros dos papéis longos, sem alterar os gastos do governo.
No Brasil, juros reais elevados e uma eleição presidencial no horizonte de curto prazo mantêm o mercado atento ao compromisso do atual ou do próximo governo com o arcabouço e o ajuste fiscal.








