SÃO PAULO — O Instituto Conhecer Brasil (ICB), controlado pela empresária Karina Gama, justificou à Prefeitura de São Paulo a cobrança antecipada para instalar pontos de wi-fi em áreas de vulnerabilidade social. A entidade afirmou haver dificuldades para firmar acordos e parcerias internas e para encontrar pessoas com acesso a comércios e organizações locais.
O contrato previa a instalação de 5 mil pontos, com cobrança de R$ 1.800,00 por unidade. O valor era seis vezes maior que o pago pela prefeitura à Prodam, estatal municipal de tecnologia, por uma ação semelhante. O contrato inicial somava R$ 108 milhões. Em junho de 2025, um termo aditivo estabeleceu o pagamento antecipado de R$ 69,1 milhões por 3.200 pontos.
A documentação do acordo teve o sigilo retirado neste domingo (13). O contrato motivou a abertura de um inquérito pela Polícia Civil de São Paulo. Os autos foram requisitados pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e tornados públicos.
Argumentos apresentados pela entidade
Na justificativa, o ICB mencionou a existência de 1.709 favelas em São Paulo, concentradas principalmente na região sudeste da cidade, no entorno dos complexos de Paraisópolis e Heliópolis. O documento citou a “desconfiança existente nas comunidades” como um dos fatores que dificultariam a instalação dos equipamentos, mas não mencionou organizações criminosas.
O texto também registrou que, conforme dados da Fundação Seade de 2020, 37% dos domicílios paulistanos não tinham conexão de banda larga. O ICB foi contratado para levar os pontos de acesso a áreas consideradas de vulnerabilidade social.
Karina Gama também é sócia da produtora GoUp, responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela ainda participa de outras pessoas jurídicas beneficiadas por emendas parlamentares de deputados bolsonaristas.
Disputa com empresa subcontratada
Para executar o serviço, o ICB subcontratou a Ultra Ip, empresa instalada em Ferraz de Vasconcelos (SP). A relação comercial terminou na Justiça. O instituto acusou a empresa de interromper deliberadamente o acesso aos pontos em setembro do ano passado, apesar de já ter recebido pelos serviços.
Nos autos, a Ultra Ip afirmou ser credora de R$ 3,5 milhões e negou ter sido responsável pelo corte do serviço.








