Um relatório de auditoria do Ministério da Previdência Social apontou irregularidades nas aplicações de R$ 97 milhões feitas pelo Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Município de Maceió (Iprev) no Banco Master. O documento embasou a investigação da Polícia Federal (PF) e indicou possíveis falhas na escolha da instituição e na análise dos riscos dos investimentos.
O Iprev aplicou R$ 80 milhões em Letras Financeiras Subordinadas do Banco Master em 6 de dezembro de 2023. Outros R$ 17 milhões foram investidos em 13 de maio de 2024. Os títulos tinham vencimento em 2033 e 2034, respectivamente, e os recursos pertenciam ao Fundo Previdenciário (Fupre).
As operações ocorreram durante a gestão de João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), que disputa o governo de Alagoas. JHC aparece nos autos como responsável legal pela unidade gestora do regime próprio de previdência perante o Ministério da Previdência e por ter poder de nomeação e exoneração da diretoria do Iprev quando era prefeito de Maceió. Ele não é investigado no caso.
Falhas apontadas na auditoria
A fiscalização do Ministério da Previdência começou em setembro de 2024 e examinou aplicações do Iprev em renda fixa bancária. O relatório final foi assinado por auditores-fiscais em 29 de outubro de 2025.
Segundo o documento, os aportes contrariaram a Política Anual de Investimentos (PAI) de 2023, que estabelecia meta de 0% para ativos bancários. As operações também concentraram cerca de 20% do patrimônio do fundo em um único emissor privado.
As Autorizações de Aplicação e Resgate usadas nas operações apresentavam justificativas genéricas, sem análises técnicas específicas sobre risco de crédito e liquidez. Para os auditores, o credenciamento do Banco Master se limitou à reunião de documentos e peças publicitárias fornecidos pela própria instituição, em um processo “meramente formal”.
A auditoria também questionou a falta de uma disputa isenta entre instituições financeiras. As aplicações teriam partido de propostas comerciais enviadas pelo Banco Master, sem concorrência transparente. Alertas da agência Fitch sobre volatilidade e baixa liquidez do banco também não teriam sido considerados.
Respostas do Iprev e atuação da PF
Em resposta à PF, o Iprev afirmou que os investimentos eram permitidos pelas normas do Conselho Monetário Nacional e que haviam sido aprovados pelo Conselho de Administração e pelo Comitê de Investimentos. A autarquia disse ainda ter seguido recomendações de consultorias especializadas e que o Banco Master constava da lista oficial de instituições habilitadas do Ministério da Previdência.
O instituto apresentou registros de consultas à Caixa Econômica Federal, ao Banco do Brasil, ao Itaú, ao Santander, ao BRB, ao BTG Pactual e à Genial. Na segunda rodada, entre março e maio de 2024, Santander, Itaú, Caixa e Master fizeram propostas formais, e a do Master foi escolhida.
A PF considerou insuficientes os esclarecimentos. Para os investigadores, os documentos não explicaram como foi formada a lista de instituições credenciadas nem comprovaram procedimentos padronizados e isonômicos para os bancos consultados.
A polícia também encontrou diferença entre uma cotação de R$ 16 milhões, feita em março de 2024 para justificar a segunda operação, e o investimento efetivamente realizado: R$ 17 milhões em 13 de maio daquele ano.
Com base na auditoria e nas respostas do Iprev, a PF apontou indícios de possível direcionamento das aplicações ao Banco Master e considerou que havia elementos para apurar possível gestão temerária ou fraudulenta. O relatório do Ministério da Previdência também fundamentou pedidos de busca, apreensão e quebra de sigilo.
Investigação
Entre os investigados estão Ronnie Reyner Teixeira Mota, ex-diretor-presidente do Iprev na época dos aportes, e Gustavo Antonio Rodrigues de Souza, ex-coordenador-geral de Investimentos e Receita dos Fundos. A apuração também envolve integrantes do Comitê de Investimentos e do Conselho de Administração.
O atual diretor-presidente do Iprev, Guilherme Emmanuel Lanzillotti Alvarenga, é investigado por suspeita de favorecimento relacionada a esclarecimentos prestados à PF.
A última movimentação da polícia ocorreu em 10 de agosto, com a deflagração da Operação Compliance 82 e o cumprimento de mandados de busca e apreensão. Foram recolhidos documentos, mídias e dispositivos eletrônicos. A PF pediu prazo adicional para periciar o material e cruzar os dados.
O ministro André Mendonça autorizou a prorrogação da investigação por mais 60 dias. A PF deverá analisar os aparelhos apreendidos e consultar informações da Controladoria-Geral da União (CGU), do Banco Central (BC) e da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
No fim de agosto, as defesas apresentaram novas petições. Em 4 de setembro, Mendonça determinou a abertura de vista à Procuradoria-Geral da República (PGR). As defesas dos investigados não haviam respondido até a publicação.








