Os ETFs europeus voltados a títulos do Tesouro dos Estados Unidos voltaram a ser considerados por investidores brasileiros diante da alta dos juros americanos. Esses fundos, geralmente domiciliados na Irlanda ou em Luxemburgo e conhecidos como UCITS, apresentam diferenças tributárias e operacionais em relação aos ETFs listados nos EUA.
Uma simulação da XP Investimentos calculou que uma aplicação de US$ 100 mil mantida por sete anos em um ETF UCITS de títulos públicos americanos teria resultado em US$ 7.560 a mais do que em um fundo americano equivalente. O cálculo compara o IB01, registrado como UCITS, e o SHV, dos EUA, ambos concentrados em títulos com vencimento de até 1 ano. A diferença equivale a cerca de 7,5% no período analisado, ou perto de 1% ao ano.
A vantagem está relacionada à forma como os fundos lidam com os juros semestrais dos Treasuries. Nos produtos europeus de acumulação, os valores permanecem dentro da carteira e são reaplicados, sem pagamento direto ao cotista. Isso permite que o capital continue rendendo e evita a retenção de imposto na fonte nos Estados Unidos sobre uma distribuição.
Já os ETFs americanos precisam distribuir os rendimentos. Embora o investidor estrangeiro seja isento da cobrança, as instituições financeiras retêm 30% na fonte para todos os cotistas. A recuperação do valor depende de um pedido de restituição feito pelo não residente.
“Os UCITS de acumulação nunca distribuem dividendos e reinvestem os valores no próprio ETF, o que não ocorre nos ETFs americanos por regulação”, afirma Marcelo Cabral, gestor de investimentos e sócio fundador da Stratton Capital, gestora com sede em Nova York. Para ele, a ausência de distribuição elimina o fato gerador do imposto e torna o produto mais vantajoso para brasileiros.
A estrutura também interfere no planejamento patrimonial. Clara Sodré, analista de fundos da XP Investimentos, explica que o Estate Tax americano pode alcançar ativos localizados nos Estados Unidos acima de US$ 60 mil. Em caso de morte do titular, a alíquota pode variar de 18% a 40%. A cobrança não atinge o investimento direto em Treasuries, mas alcança ETFs de renda fixa registrados nos EUA.
Os UCITS não entram nessa regra porque têm domicílio fiscal fora dos Estados Unidos, na Irlanda ou em Luxemburgo, países que mantêm acordos fiscais com o governo americano. Sodré afirma que os fundos europeus também dispensam o processo de recuperação do imposto retido e acrescentam uma alternativa de proteção patrimonial à diversificação internacional.
Cenário dos juros e alocação
A pressão sobre os juros americanos ocorre em meio à guerra entre Estados Unidos e Irã e à falta de previsão para a reabertura do Estreito de Ormuz. O petróleo em alta voltou a alimentar preocupações com a inflação. Ao mesmo tempo, dúvidas fiscais e o volume de emissões pressionam os títulos de prazo mais longo.
Em agosto, o Tesouro americano dobrou o tamanho das recompras de títulos longos. O Federal Reserve também mantém aberta a possibilidade de elevar novamente os juros. Nesse ambiente, os papéis de 10 anos pagam ao redor de 4,7% ao ano, enquanto os de 30 anos oferecem 5,2%. Nos títulos protegidos contra a inflação, os TIPS, o juro real é de 2,4% em 10 anos e de 2,98% em 30 anos.
Sodré defende que o investidor mantenha ao menos 15% da carteira em ativos globais. A exposição pode ocorrer no mercado brasileiro, por meio de BDRs e ETFs que acompanham índices internacionais, ou com o envio de recursos ao exterior. A escolha, segundo ela, deve considerar o ciclo de vida e a estratégia de cada pessoa.
Para quem deseja ampliar a exposição internacional, a analista aponta a remessa por uma conta global. Ela afirma que o movimento atual dos juros oferece uma oportunidade relevante, mas ressalta a necessidade de seletividade e diversificação.
Prazo dos títulos
Cabral recomenda avaliar os Treasuries pela função de proteção de capital e geração de renda previsível, e não pela expectativa de valorização do principal. Na avaliação dele, o trecho entre dois e cinco anos apresenta uma relação mais equilibrada entre risco e retorno, com rendimento maior e menor volatilidade.
A possibilidade de nova alta dos juros pelo Federal Reserve, as intervenções recentes do Tesouro, as preocupações com o déficit fiscal e mudanças na comunicação do banco central podem ampliar as oscilações dos papéis longos. “A combinação desses fatores aumenta a volatilidade e o risco de marcação a mercado, principalmente para os vencimentos mais distantes”, diz Cabral.
Bruno Perri, economista-chefe e sócio fundador da Forum Investimentos, identifica uma oportunidade nos vencimentos próximos de 10 anos. Para ele, esses títulos oferecem retorno nominal e real compatível com os padrões americanos, embora os prazos muito longos permaneçam mais expostos à volatilidade das taxas e à marcação a mercado.









