A expansão dos serviços de criptomoedas nos bancos brasileiros não veio acompanhada, até agora, de registros de posições próprias dessas instituições. Nos balancetes enviados ao Banco Central com data-base de março de 2026, não foram identificados saldos ou ativos virtuais mantidos diretamente pelos bancos.
A situação é diferente na oferta aos clientes. Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil, Banco Safra e Nubank passaram a disponibilizar mais alternativas de exposição a esse mercado, por meio de compra direta, fundos, ETFs ou stablecoins.
O que aparece nos balanços
O Banco Central informa que as instituições financeiras podem intermediar e custodiar ativos virtuais, desde que cumpram as regras aplicáveis e comuniquem formalmente a autarquia. Na custódia, os ativos ficam registrados em nome dos clientes e não passam automaticamente a pertencer ao banco.
Carlos Castilho, diretor executivo de serviços financeiros da EY, explica que existe exposição própria quando a instituição usa recursos para comprar o criptoativo, controla os benefícios econômicos relacionados a ele e assume os riscos de preço, liquidez e crédito. O texto não aponta uma proibição geral para que bancos mantenham posições próprias, mas os registros de março de 2026 não mostram saldos desse tipo.
Para Isac Costa, professor do Insper, a expansão dos serviços é influenciada pela procura dos clientes, pela redução de custos operacionais e pela consolidação das normas brasileiras e internacionais. Ele não identifica, porém, movimento relevante dos bancos para investir diretamente nessa classe de ativos.
Produtos disponíveis
O Itaú ampliou a carteira de criptomoedas em 2025 e oferece atualmente 15 ativos, entre eles bitcoin, ether e USDC, uma stablecoin vinculada ao dólar. A instituição informa que mantém sob sua custódia os ativos disponibilizados aos clientes e orienta que o investidor avalie a compatibilidade entre seus objetivos e os riscos do mercado.
O Banco Safra lançou em 2025 o Safra Dólar, uma stablecoin própria administrada e custodiada pela instituição. Segundo o banco, o produto funciona como alternativa para dolarização do patrimônio.
Em janeiro, o Banco do Brasil passou a oferecer investimentos diretos em bitcoin e ether. O serviço já movimentou mais de R$ 11 milhões em transações, segundo a instituição. Desde 2022, o banco também permitia exposição ao segmento por meio de fundos e ETFs, que acompanham o desempenho de uma criptomoeda ou de um conjunto de ativos. Bradesco e Santander oferecem exposição por ETFs.
O Nubank acrescentou quatro criptomoedas ao portfólio de sua plataforma em maio de 2026. A fintech informa que passou a ter 28 ativos disponíveis, incluindo bitcoin, ether e USDC, para compra, venda e transferência. A plataforma tem mais de 7 milhões de clientes no Brasil e classifica os criptoativos como investimentos de alto risco.
Regulação e riscos
O Marco Legal dos Criptoativos foi aprovado em 2022. A norma estabeleceu princípios gerais para o setor e atribuiu ao Banco Central a responsabilidade pela regulamentação das prestadoras de serviços de ativos virtuais.
Desde 2026, essas empresas estão sujeitas a regras do Banco Central, incluindo exigências de capital mínimo, segregação patrimonial e supervisão. As prestadoras que já atuavam no mercado têm até novembro para se adequar às normas.
A regulamentação também acompanhou o crescimento das operações. Dados da Receita Federal mostram que pessoas jurídicas movimentaram cerca de R$ 497 bilhões em criptoativos no Brasil em 2025. O valor correspondeu a 98,3% dos R$ 505,5 bilhões informados por pessoas físicas e jurídicas. O volume total aumentou 22% em relação a 2024 e 433% desde 2020.
Os dados não detalham quanto desse montante está relacionado à oferta de produtos bancários, mas indicam maior participação de empresas nas operações com criptoativos.
A volatilidade exige atenção ao peso desses investimentos na carteira. Cristiano Corrêa, professor de finanças do Ibmec, afirma: "Uma ação pode cair 4% ou 5% em um dia ruim. Em cripto, esses movimentos podem ser muito mais rápidos e maiores." Para Felipe Quiodine, planejador financeiro pela Planejar, uma exposição entre 1% e 3% da carteira total pode limitar o impacto de perdas severas, sem eliminar a possibilidade de valorização.








