A elevação das tarifas americanas sobre produtos brasileiros não provocou uma saída generalizada de empresas do mercado dos Estados Unidos. O principal efeito foi a revisão das estratégias usadas para vender no país, com maior atenção a custos, logística, tributação e estruturas locais.
A mudança ocorre enquanto Brasil e Estados Unidos ainda negociam. No último mês, o governo brasileiro acionou a Lei da Reciprocidade Econômica, que permite avaliar possíveis contramedidas às sobretaxas aplicadas pelos americanos.
Para Camila Moura, diretora de Negócios Internacionais da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), as empresas passaram a discutir não apenas a exportação, mas o formato mais eficiente de operação. “A pergunta para muitas empresas deixou de ser apenas exportar ou não exportar”, afirmou.
Menos empresas iniciando expansão
Diego Sampaio, CEO da Globalfy, plataforma que auxilia empreendedores a abrir e administrar empresas nos Estados Unidos, afirma que a maior retração ocorreu entre negócios que ainda planejavam entrar no mercado americano. A dificuldade de calcular previamente preço de venda e custos tem levado empreendedores a adiar decisões.
A procura por marcas brasileiras interessadas em começar operações nos Estados Unidos caiu cerca de 50% nos últimos 18 meses, segundo Sampaio. Entre os clientes da Globalfy estão Bars Over Bottles (BOB), The Gride, marca ligada aos sócios da Oakberry, além de empresas de moda premium, acessórios e fabricação de móveis do Sul do país.
Em sentido oposto, companhias que já atuavam nos Estados Unidos passaram a buscar modelos mais eficientes do ponto de vista operacional e tributário. A Amcham identifica tanto investimentos adiados quanto empresas que aceleraram planos para aproveitar oportunidades já mapeadas.
Exportações recuam e tarifas aumentam custos
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 13%, para US$ 17,4 bilhões. A participação americana nas vendas externas do Brasil recuou para 9,4%, o menor nível em um primeiro semestre desde o início da série histórica, em 1997. Nos produtos atingidos pelas sobretaxas, a redução chegou a 16,6%.
A Amcham aponta exposição especialmente relevante em aço e metais, máquinas e equipamentos, madeira e alguns manufaturados. Apesar da queda, os Estados Unidos permanecem entre os principais destinos para a internacionalização de empresas brasileiras. Para Moura, o país não deixou de ser prioritário, mas passou a exigir análises mais detalhadas.
Desde agosto de 2026, muitos produtos brasileiros passaram a pagar uma cobrança adicional formada, em linhas gerais, por uma tarifa específica de 25% para o Brasil, uma sobretaxa de 12,5% incluída em medidas comerciais mais amplas e o imposto de importação aplicável a cada mercadoria. A carga extra pode chegar a 37,5%, além do imposto original, que varia conforme o produto e pode alcançar cerca de 34%.
O impacto final depende do setor e do modelo de venda. Moda e acessórios, por exemplo, costumam enfrentar alíquotas mais altas. Na exportação direta ao consumidor, a cobrança considera o valor final da venda. Com uma subsidiária americana, a base tributável pode mudar conforme as regras de comércio exterior e de preço de transferência.
Subsidiárias ganham espaço
A criação de subsidiárias, centros de distribuição e estruturas comerciais próprias passou a ser avaliada por mais empresas. Também cresceram as renegociações de contratos, as revisões de custos e os esforços para melhorar a produtividade e reorganizar as cadeias logísticas.
Na Globalfy, aumentou a procura por subsidiárias entre companhias que vendiam diretamente do Brasil ao consumidor americano, no modelo cross-border. Nessa alternativa, uma empresa nos Estados Unidos importa os produtos brasileiros e realiza a revenda local.
Uma simulação da Globalfy mostra que um vestido comercializado por US$ 100 nos Estados Unidos geraria US$ 53,50 em impostos e tarifas na exportação direta. Com uma subsidiária americana, o valor cairia para US$ 13,38.
A estratégia tem sido mais procurada por negócios de maior valor agregado, como moda, cosméticos, móveis, decoração e acessórios. De acordo com Sampaio, uma receita anual a partir de US$ 5.000 pode justificar uma operação local quando o custo médio é de US$ 1.500 por ano.
Custos e prazo para abrir uma empresa
A Globalfy informa que a abertura de uma empresa nos Estados Unidos pode ser feita remotamente e não exige visto. O processo depende principalmente da emissão do EIN (Employer Identification Number) pelo Internal Revenue Service (IRS), além da criação de uma conta bancária. O prazo costuma ficar entre 20 e 30 dias.
As despesas incluem endereço virtual, renovação estadual e, quando necessário, declaração de imposto de renda ou serviços contábeis. Para uma Limited Liability Company (LLC), as taxas anuais variam de cerca de US$ 62 em Wyoming a US$ 140 na Flórida e US$ 300 em Delaware.
Um estudo de transfer pricing pode custar entre US$ 3.500 e US$ 5.000. Também podem existir despesas de registro na Food and Drug Administration (FDA), dependendo do produto. A manutenção anual fica entre US$ 1 mil e US$ 1,5 mil em estruturas simples e pode alcançar de US$ 5 mil a US$ 10 mil quando há necessidade de suporte contábil e fiscal mais amplo.
Negócios digitais costumam escolher Wyoming e Delaware. Empresas de produtos físicos frequentemente optam por Flórida e Texas, principalmente por fatores logísticos e tributários.
Para a Amcham, as tarifas aceleraram uma transformação que já envolvia diversificação de riscos, revisão das cadeias de suprimentos, novos acordos e maior presença local em mercados considerados estratégicos. A entidade avalia que o cenário aumentou a complexidade das decisões e a necessidade de análises estruturadas.









