Pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF-USP) identificaram que a descoloração e o alisamento alteram as estruturas externa e interna do cabelo e reduzem sua estabilidade diante do calor. Os efeitos foram mais acentuados nos fios submetidos aos dois procedimentos.
O estudo comparou cabelos virgens, descoloridos, alisados com produtos à base de ácido e submetidos à combinação de alisamento e descoloração. As amostras foram aquecidas e analisadas por microscopia eletrônica, espalhamento de raios X e espectroscopia de infravermelho. Os resultados foram publicados na revista Biopolymers.
Alterações na estrutura do fio
O cabelo é formado por cutícula, córtex e medula. A cutícula protege o fio e contém lipídios que ajudam a repelir a água. O córtex, composto principalmente por queratina, concentra a resistência e a elasticidade, além da melanina responsável pela cor.
Na descoloração, os produtos precisam alcançar o córtex para oxidar a melanina. A degradação dos grânulos desse pigmento pode formar cavidades no interior do fio, aumentando a porosidade e criando pontos de fragilidade. O alisamento também interfere na estrutura capilar, e a combinação dos dois procedimentos provocou mudanças internas mais importantes do que os tratamentos isolados.
O diferencial da pesquisa foi acompanhar essas alterações durante o aquecimento. Cibele Lima, autora do estudo, afirmou que foi possível identificar em quais condições as mudanças estruturais se intensificam. Segundo ela, um fio pode manter brilho e aparência lisa mesmo depois de perder parte de sua estrutura interna.
Efeito das temperaturas elevadas
Nos fios submetidos ao alisamento ácido, os pesquisadores observaram, por volta de 70 °C, uma mudança na organização dos lipídios localizados entre as células da cutícula e do córtex. Essas substâncias ajudam a manter as camadas coesas, mas passam de um estado organizado para outro desordenado com o aquecimento.
Em condições controladas de laboratório, a degradação térmica começou por volta de 200 °C no cabelo virgem e de 175 °C no alisado. A diferença de 25 °C indica menor estabilidade térmica nos fios quimicamente tratados. Ferramentas de calor disponíveis no mercado trabalham entre 200 °C e 230 °C.
Os valores não representam limites exatos de segurança para chapinhas e secadores. A temperatura indicada no aparelho pode não ser a mesma atingida pelo fio, e o dano também depende do tempo de contato, do número de passadas e da repetição do uso. “O dano é cumulativo: repetições diárias somam efeito mesmo abaixo desse limiar”, explicou Cibele Lima.
Recomendações
O dermatologista Beni Grinblat, do Einstein Hospital Israelita, recomenda usar a menor temperatura capaz de produzir o resultado desejado. No caso do secador, a orientação é mantê-lo distante dos fios e em movimento constante, evitando concentrar o calor na mesma área.
Também é indicado reduzir a frequência e a sobreposição de procedimentos químicos, ampliar o intervalo entre descolorações e alisamentos e manter cuidados cosméticos após os tratamentos. Produtos podem melhorar o toque e a aparência, mas não reconstroem completamente uma estrutura já destruída. “O dano é irreversível. É preciso esperar nascer um fio novo”, afirmou Grinblat.








