A Polícia Federal identificou repasses de pelo menos R$ 6,8 milhões a Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, servidores do Banco Central que chefiaram o Departamento de Supervisão Bancária (Desup). Segundo a investigação, os dois prestavam uma assessoria informal a Daniel Vorcaro e o orientavam sobre argumentos para defender os negócios do banco em reuniões com Roberto Campos Neto e outros diretores da instituição.
O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal. Na noite de quinta-feira (10), o ministro André Mendonça retirou o sigilo de documentos relacionados às investigações, após solicitação de Edson Fachin, presidente da Corte. A estimativa dos valores recebidos foi calculada a partir de mensagens, contratos de gaveta e planilhas apreendidas.
Pagamentos atribuídos a Belline
A PF localizou registros de pagamentos a Belline desde o fim de 2023. A primeira parcela identificada aparece em 26/10/2023. Os valores registrados variam de R$ 500 mil a R$ 760 mil. Em outubro de 2024, uma nota atribuída a Leonardo Palhares, operador financeiro de Vorcaro, indicou um repasse de R$ 760 mil. Uma relação de pagamentos pendentes de janeiro de 2025 associou Belline a R$ 750 mil. Já em setembro de 2025, uma despesa de R$ 500 mil foi relacionada ao servidor.
Conforme a investigação, os repasses foram disfarçados por uma contratação fictícia. Uma empresa ligada a Vorcaro enviava os recursos à empresa de Palhares, que emitia notas e transferia o dinheiro a Belline. O esquema teria sido estruturado para evitar que os valores saíssem diretamente do banco.
Também foi localizada uma carta que convidava Belline a participar de um projeto de qualificação profissional voltado ao sistema financeiro e à economia digital. Em setembro de 2025, Vorcaro teria organizado e pago uma viagem de Belline e da esposa a Paris, incluindo reservas em restaurantes, logística e guias.
Negócio envolvendo Paulo Sérgio
No caso de Paulo Sérgio, a PF investigou a venda de uma propriedade rural em Muzambinho, Minas Gerais. O imóvel foi negociado em janeiro de 2020 por R$ 4,8 milhões, conforme um contrato de gaveta: R$ 1,8 milhão de sinal e quatro parcelas anuais de R$ 750 mil. Na escritura pública, porém, foi registrado o valor de R$ 3 milhões.
A compradora formal foi a Pipe Participações Ltda., pertencente a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. A investigação afirma que a empresa funcionou como fachada, porque Zettel não teria tratado diretamente com os vendedores. Os metadados do contrato apontaram Márcio Contador Camargo, servidor do Banco Central lotado no mesmo departamento de Paulo Sérgio, como responsável pela criação do arquivo.
A PF também encontrou mensagens de janeiro e fevereiro de 2024 sobre uma viagem internacional à Disney para Paulo Sérgio e sua família, custeada e viabilizada por Vorcaro.
Paulo Sérgio afirmou no processo que a venda do sítio e da casa foi legítima e que o guia na Disney foi uma gentileza sem contrapartida. Belline declarou que os repasses foram destinados aos projetos sociais mencionados, sem benefício próprio, e que consultou órgãos de ética sobre a realização da iniciativa. Em nota, sua defesa disse que ele “sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BCB dentro dos estritos limites de suas atribuições”. A defesa de Paulo Sérgio não apresentou posicionamento.








