Os democratas tentam transformar o desgaste político e econômico associado a Donald Trump em votos nas eleições legislativas de 3 de novembro, mas enfrentam dificuldades para equilibrar o entusiasmo da ala progressista com a necessidade de atrair eleitores independentes.
A disputa interna ganhou força após vitórias de candidatos ligados à esquerda em primárias realizadas nos últimos meses. Na Flórida, Angie Nixon, integrante da Democratic Socialists of America (DSA), venceu Alex Vindman por uma diferença de doze pontos percentuais na votação de 18 de agosto para uma vaga no Senado.
Em Michigan, Abdul El-Sayed conquistou a indicação democrata em 5 de agosto. Embora não seja filiado formalmente à DSA, ele é associado à ala progressista e recebeu apoio de Bernie Sanders. El-Sayed também tenta adotar um discurso mais amplo para a eleição, apresentando-se como capitalista e citando os legados de Sanders e Barack Obama.
Primárias ampliam disputa dentro do partido
Outro resultado relevante ocorreu em junho, em Washington. Janeese Lewis George, integrante da DSA, venceu a primária democrata para a prefeitura da capital americana e aparece como favorita para se tornar a primeira prefeita ligada ao socialismo democrático da história do Distrito de Columbia.
A sequência de resultados, somada a outras disputas municipais e estaduais, fortaleceu a percepção de que parte do eleitorado democrata procura candidatos dispostos a romper com a postura considerada moderada pela direção do partido. Zohran Mamdani, eleito prefeito de Nova York há menos de um ano, tornou-se uma referência para setores progressistas da legenda.
Elaine Kamarck, pesquisadora da Brookings Institution, avalia que a influência eleitoral da DSA costuma ser superestimada. Para ela, as vitórias que recebem atenção nacional não demonstram necessariamente que a organização tenha ampliado sua presença de forma equivalente em todo o país.
Kamarck também reconhece a insatisfação crescente entre eleitores democratas mais jovens. Esse grupo considera tímida a resposta do partido aos ataques políticos e institucionais de Trump e busca lideranças dispostas a confrontá-lo de maneira mais direta.
Controvérsia com influenciador preocupa democratas
O debate se intensificou com o caso Hasan Piker, influenciador político de esquerda que reúne mais de três milhões de seguidores na Twitch. Em transmissões diárias, ele comenta política internacional, cultura digital e temas sociais, além de se declarar socialista e anti-imperialista.
Em 20 de agosto, Piker afirmou que judeus que associam sua identidade ao apoio a Israel poderiam se expor à violência. As declarações provocaram acusações de antissemitismo e foram exploradas pelo Partido Republicano.
Abdul El-Sayed, que havia feito campanha ao lado do influenciador em Michigan, divulgou um comunicado para afirmar que Piker não representava sua candidatura. A senadora Elissa Slotkin também condenou os comentários. A deputada Debbie Dingell, por sua vez, demonstrou irritação com a frequência de perguntas sobre o episódio.
Piker rejeita as acusações e afirma ter combatido o antissemitismo durante toda a vida. Ele também diz ser alvo de uma campanha de difamação organizada acompanhada de manifestações islamofóbicas.
Desgaste de Trump abre espaço para oposição
A expectativa democrata de avançar em estados competitivos também se apoia na frustração de empresários e trabalhadores latinos em Los Angeles. Na cidade, onde vivem cerca de cinco milhões de latinos, apoiadores de Trump em 2024 relatam dificuldades econômicas relacionadas à política migratória da Casa Branca.
Miriam Torres, pesquisadora da Universidade da Califórnia, estima que uma área atingida por operações da polícia migratória perdeu aproximadamente US$ 1 milhão em atividade econômica durante quinze dias de ações. Comerciantes do Fashion District afirmam que o movimento de consumidores caiu desde a intensificação das operações, em junho de 2025. Eles relatam redução nas vendas, aumento do endividamento e demissões.
José, trabalhador da construção civil que atua na região desde os anos 1980, afirma evitar bairros com relatos da presença da polícia migratória. Para ele, parte dos eleitores latinos que apoiaram Trump passou a reconsiderar a escolha diante dos efeitos econômicos das medidas do governo.
A disputa de 3 de novembro será o teste para a capacidade dos democratas de aproveitar esse desgaste sem permitir que controvérsias e conflitos internos afastem eleitores. Uma vitória em uma ou nas duas casas do Congresso fortaleceria a reivindicação dos progressistas sobre o resultado; uma derrota poderia levar dirigentes moderados a questionar o efeito das vozes mais radicais na campanha.








