CARACAS — A produção média de eletricidade na Venezuela caiu para 12.000 megawatts, enquanto a demanda atual chega a 14.000. O desequilíbrio ajuda a explicar a ampliação dos cortes para bairros de Caracas e a sequência de protestos em estados do interior, especialmente Táchira.
A crise ocorre enquanto o governo interino de Delcy Rodríguez tenta recuperar a infraestrutura elétrica e firmar acordos para ampliar a capacidade do sistema. Medidas anunciadas em agosto, entre elas a redução da jornada de trabalho no setor público, não impediram a piora do fornecimento nesta sexta-feira (11).
Diferença entre geração e consumo
Antes da chegada do chavismo ao poder, em 1999, a Venezuela produzia 20.000 megawatts diários e consumia cerca de 12.000, segundo o deputado opositor Ezio Angelini. Atualmente, a geração média é de 12.000 megawatts, abaixo do consumo de 14.000.
Durante uma visita recente ao país, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou que existe uma grande capacidade de geração sem funcionamento e que parte da infraestrutura poderia ser reativada rapidamente, acrescentando gigawatts ao sistema.
Rodríguez encaminhou ao Legislativo uma reforma elétrica, que ainda não foi aprovada. O governo também fechou acordos com empresas transnacionais, incluindo a GE Vernova, para recuperar 5.000 megawatts em quatro anos. Em outra frente, estabeleceu com os Estados Unidos um convênio que cede 20% das reservas petrolíferas venezuelanas e assinou contratos com grandes empresas do setor.
A tentativa de aumentar a geração ocorre ao mesmo tempo em que o governo busca atrair capital estrangeiro para petróleo e mineração, atividades que consomem grandes volumes de eletricidade. O setor petrolífero também depende de mais energia para manter refinarias e operações de extração.
Reclamações em Táchira
Na fronteira com a Colômbia, moradores de San Cristóbal relatam cortes diários e dizem que a energia produzida em Táchira é enviada para a capital. A secretária Josner Herrera, de 38 anos, afirmou que a situação se tornou insustentável: “Estou realmente exausta, cansada, e agora percebo que nós poderíamos ter luz o tempo todo”.
O ex-deputado opositor Heriberto Labrador disse que a termoelétrica do estado gera cerca de 70 megawatts, volume que atenderia à demanda interna, mas que grande parte da produção é direcionada ao sistema interconectado nacional. Segundo ele, há localidades que ficam até 26 horas sem eletricidade.
Labrador também afirmou que os cortes prolongados prejudicam o comércio e a cadeia de frio dos produtores agropecuários. O governador chavista Freddy Bernal, há quatro anos no cargo, não comentou o tema quando foi questionado pela imprensa local.
Bloqueios durante a noite
Moradores bloquearam durante as noites desta semana a estrada que liga Táchira a Barinas. Buzinaços acompanharam os protestos, motivados pelas interrupções cotidianas e pelos prejuízos provocados pela falta de energia.
Em San Cristóbal, Irma Villasmil, 48, subgerente de um banco, disse que sua geladeira queimou duas vezes. Ela também afirmou que a população do interior não deveria arcar com a falta de eletricidade para preservar o fornecimento na capital.
Em Barinas, no oeste do país, e em Valencia, a 170 km de Caracas, moradores foram às ruas em meados de agosto para reclamar dos cortes, sob calor e umidade intensos.
A deterioração do sistema é atribuída a décadas de falta de manutenção, corrupção e investimentos insuficientes. A dependência de grandes complexos hidrelétricos e a dificuldade de modernizar termoelétricas aumentaram a vulnerabilidade a falhas em cadeia.
A situação se agravou após a captura de Nicolás Maduro em janeiro, quando Rodríguez assumiu o governo sob pressão de Washington. A mandatária tenta reorganizar o setor energético enquanto enfrenta críticas de opositores e desconfiança de parte da população. A reforma elétrica continua pendente, e os cortes seguem afetando moradores de Táchira e de outras regiões.








