A cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado enfrenta restrições na concessão de vistos e na realização de visitas oficiais. O Departamento de Estado americano mantém pendentes os vistos de dois agentes da Polícia Federal que deveriam atuar em Miami e Nova York junto ao Homeland Security Investigations e a outras agências dos Estados Unidos.
Em resposta, o Brasil reteve o visto de um agente de segurança pública americano que seria enviado ao país. As negociações continuam, segundo autoridades americanas e brasileiras. Os policiais brasileiros haviam sido selecionados e aprovados pelos dois governos no início do ano para uma renovação rotineira dos quadros.
A Polícia Federal e o Itamaraty não comentaram os casos específicos. O ministério responsável pela supervisão da área de alfândega, receita e controle de fronteiras afirmou que os dois países mantêm diálogo para trocar boas práticas e combater o crime transnacional.
Visitas recusadas e cooperação afetada
O governo americano também recusou um pedido para que agentes da Receita Federal e da Aduana brasileira visitassem órgãos equivalentes em Washington. A equipe, formada por quase uma dezena de agentes, havia solicitado a viagem em junho para ampliar a cooperação contra lavagem de dinheiro e contrabando de armas. A justificativa apresentada foi a falta de disponibilidade na agenda até novembro.
Segundo uma autoridade brasileira, um sistema de compartilhamento de inteligência implementado neste ano permitia alertas sobre contêineres suspeitos. A troca ajudou a interceptar cargas ilícitas, incluindo armas.
Os dois países têm histórico de investigações conjuntas sobre fraude, tráfico, corrupção, pirataria e tráfico de pessoas. A agência de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos mantém um adido no Brasil há mais de duas décadas.
O impasse ocorre após a expulsão, em abril, do agente brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho. O governo Trump o acusou de sofrer uma “perseguição política” por seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira. Depois da expulsão, o Brasil revogou as credenciais de um agente americano que atuava em Brasília.
Relação política
O desgaste também aparece nas discussões entre Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva. Em maio, Lula apresentou na Casa Branca uma proposta de cooperação contra facções do narcotráfico, com foco em armas e finanças. O governo americano não respondeu à proposta, segundo uma autoridade brasileira. Em 21 de agosto, os dois presidentes voltaram a tratar do tema.
A política de segurança americana em relação ao Brasil ficou “contaminada pela política”, disse Robert Muggah, diretor de pesquisa do Instituto Igarapé. Para Edvandir Felix de Paiva, presidente da associação de delegados da Polícia Federal, as facções criminosas não conhecem fronteiras e exigem trabalho conjunto.
Os Estados Unidos também avançaram na designação das duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. O Brasil não integra o Shield of the Americas, aliança de segurança criada por Washington, e não foi convidado para um encontro liderado pelos americanos na sede da ONU no mês passado.
O Departamento de Estado afirmou que mantém os mais altos padrões de segurança nacional e pública na concessão de vistos. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos disse estar comprometida com o diálogo e com o combate ao crime transnacional.








