A identificação de pessoas mortas ou desaparecidas pode depender de informações preservadas em ossos, dentes, cabelos, unhas e até em pequenas características do rosto. A antropologia forense reúne esses dados para estabelecer identidades, investigar traumas e apoiar famílias que buscam respostas, mesmo anos ou décadas depois da morte.
O papel das marcas individuais
O trabalho começa com a elaboração de um perfil biológico dos remanescentes humanos. A análise do esqueleto permite estimar sexo, idade aproximada, estatura e afinidade populacional, entendida como o conjunto de características genéticas transmitidas entre gerações.
Cada parte do corpo oferece pistas diferentes. A pelve costuma ser a estrutura mais confiável para estimar o sexo biológico, enquanto o fêmur ajuda a calcular a estatura. As clavículas podem fornecer informações relacionadas à idade. Fraturas antigas, doenças degenerativas, próteses, placas cirúrgicas, alterações causadas por hábitos cotidianos e deformações anatômicas também podem funcionar como marcas individuais.
O esqueleto ainda pode registrar traumas provocados por facas, projéteis de arma de fogo ou instrumentos contundentes. Já uma morte por parada cardíaca, por exemplo, não necessariamente deixa alterações ósseas identificáveis.
A professora Cláudia Plens, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que as estimativas servem para restringir as possibilidades de identificação, e não para produzir uma resposta isolada. “Estimativas a partir dos ossos são feitas para determinar quem aquela pessoa poderia ser”, afirma.
Escavação, laboratório e perícia
Antropólogos e arqueólogos forenses atuam em etapas diferentes. O antropólogo examina os remanescentes no laboratório, enquanto o arqueólogo trabalha no local onde os vestígios são encontrados. Cemitérios clandestinos, valas comuns e cenas complexas de crime podem ser escavados com registro da posição de cada elemento.
Essa documentação ajuda a reconstruir a relação entre ossos, objetos e demais vestígios. Segundo Plens, objetos aparentemente pequenos podem ter grande importância para as famílias. No Brasil, porém, muitos órgãos policiais não têm arqueólogos forenses em seus quadros, o que exige a formação de equipes multidisciplinares em investigações complexas.
A legislação brasileira restringe a atuação oficial na perícia criminal a peritos criminais, médicos-legistas e odontolegistas. Essa regra limita a participação direta de profissionais de outras áreas, como arqueólogos.
DNA e odontologia legal
O DNA é um método primário de identificação, mas precisa ser comparado com outro material. Esse padrão pode vir de um banco de dados confiável ou de um familiar que procura uma pessoa desaparecida. Sem comparação, o perfil genético não é suficiente para identificar alguém.
Por isso, o perfil biológico funciona como uma filtragem anterior aos exames genéticos. Quanto mais informações forem obtidas nos remanescentes, menor será o conjunto de pessoas com quem o DNA precisará ser confrontado. Leticia Sobrinho, antropóloga forense do IML (Instituto Médico Legal) de Salvador, resume a limitação: “sem comparação, não é possível identificar”.
Os dentes também estão entre os elementos mais úteis. Formato, posição, desgaste, restaurações, extrações, tratamentos de canal, aparelhos ortodônticos e cáries podem diferenciar uma pessoa de outra. Em incêndios, a arcada dentária pode resistir a temperaturas que destroem outros tecidos.
Por esse motivo, registros odontológicos, DNA e papiloscopia — as impressões digitais — integram o grupo dos identificadores primários recomendado para vítimas de desastres.
Reconstrução facial e rastros químicos
Quando não há documentos, familiares ou rosto preservado, a reconstrução facial pode gerar uma imagem aproximada a partir do crânio. O método, antes feito com argila e moldes de gesso, passou a usar softwares especializados, tomografias computadorizadas, escaneamentos tridimensionais e fotogrametria.
Medições realizadas em pontos craniométricos alimentam os programas com dados como sexo, idade, formato facial e espessura média dos tecidos moles. O objetivo não é criar um retrato perfeito, mas produzir uma representação que desperte o reconhecimento de familiares, amigos ou conhecidos.
Eugénia Cunha, professora da Universidade de Coimbra, considera a técnica uma das promessas da área, mas ressalta que a qualidade do resultado depende também da precisão das análises biológicas do esqueleto.
Outra possibilidade está nos isótopos estáveis. Elementos químicos absorvidos por meio da água e da alimentação permanecem registrados em cabelos, unhas e dentes. Como solos e águas variam entre regiões, esse registro pode indicar deslocamentos ao longo da vida. A técnica poderá ajudar a investigar se a vítima vivia no local onde foi encontrada ou se havia viajado antes da morte.
Análise de pessoas vivas
A antropologia forense também é aplicada a pessoas vivas. Exames podem estimar a idade biológica de refugiados e migrantes sem documentos, a partir do desenvolvimento ósseo, do fechamento das cartilagens de crescimento e da maturação de determinados ossos.
A área ainda auxilia na identificação de suspeitos quando imagens registram apenas partes do rosto ou do corpo. O formato da orelha, a implantação do nariz, cicatrizes e outras características de tecidos moles podem ser comparados com fotografias e vídeos.
No IML de Salvador, uma equipe psicossocial acolhe famílias que procuram informações sobre parentes desaparecidos ou recém-identificados. Para Sobrinho, esse atendimento faz parte do trabalho de identificação.
Limitações no Brasil
Dados do Ministério da Saúde indicam que pelo menos 3,7 mil cadáveres não são identificados no Brasil todos os anos. Um dos obstáculos está na falta de integração entre informações de diferentes estados.
Um corpo pode ser encontrado em São Paulo enquanto o desaparecimento foi registrado no Pará. Se os dados fornecidos pela família, os exames e os bancos de dados permanecerem restritos a sistemas estaduais, uma correspondência pode não ser localizada.
A formação profissional também não é padronizada. Plens relata que métodos diferentes são usados em cada estado e que muitos profissionais aprendem por conta própria. Na Unifesp, ela criou um curso dedicado à antropologia forense, com duração de dois anos. Até agora, a especialização formou três turmas.
Outro desafio é adaptar métodos desenvolvidos com base em populações europeias ou norte-americanas à realidade brasileira. Para Leticia Sobrinho, o ideal é desenvolver ou validar técnicas voltadas à população do país, marcada por características miscigenadas.








