O desempenho dos estudantes brasileiros no Pisa mostra que as dificuldades de aprendizagem no ensino básico também afetam a produtividade e a capacidade de expansão da economia. Os dados mais recentes, divulgados nesta terça-feira, 8, indicam que o país não apresentou avanço estrutural na última década.
Em 2025, o Brasil alcançou 377 pontos em matemática, 409 em ciências e 408 em leitura. A pontuação de matemática foi igual à de 2015. Nas demais áreas, a mudança desde então não alterou o quadro geral. Entre 91 países avaliados, o país ficou em 71º lugar em matemática, 67º em ciências e 52º em leitura.
A parcela de estudantes abaixo do nível mínimo de proficiência ajuda a dimensionar o problema. Em matemática, são 72% dos alunos brasileiros, contra 35% na média da OCDE. Em ciências, o índice é de 52%, ante 26%; em leitura, de 51%, diante de 31%. Considerando as três disciplinas, 43,8% dos estudantes do Brasil não atingem o patamar básico, mais que o dobro dos 19,7% registrados na OCDE.
Na prática, esse grupo chega ao fim da educação básica com limitações para interpretar textos, aplicar conceitos matemáticos em situações simples e compreender evidências científicas. O Pisa também registrou, no cenário internacional, piora em competências ligadas à análise de informações e ao pensamento crítico. Essa capacidade ganha relevância com o avanço da inteligência artificial, que aumenta a necessidade de verificar respostas e identificar erros.
Educação e falta de profissionais
A baixa aprendizagem tem efeito social ao restringir oportunidades e dificultar a mobilidade. Também produz consequências econômicas, porque uma força de trabalho com formação insuficiente tende a ser menos produtiva. Para as empresas, o problema aparece na busca por técnicos, engenheiros, programadores, gestores e outros profissionais capacitados.
A Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, aponta que 80% dos empregadores brasileiros enfrentam dificuldades para preencher vagas. A média mundial é de 72%, e o indicador brasileiro permanece próximo de 80% desde 2023.
A dificuldade alcança diferentes setores. Ela foi relatada por 85% das empresas de serviços científicos e técnicos e por 83% das companhias da área de informação. Comércio e logística, manufatura, hospitalidade, serviços públicos e recursos naturais registraram índice de 79%.
A falta de trabalhadores qualificados pode deixar postos vagos, prolongar projetos e reduzir o retorno de investimentos. Também pode elevar salários sem aumento proporcional da produtividade e pressionar custos.
A engenharia ilustra a ligação entre educação, investimentos e desempenho econômico. Embora o Brasil esteja em uma nova fase de expansão dos investimentos em infraestrutura, uma estimativa do Sinicon indica déficit de cerca de 75 mil engenheiros atualmente. Mantidas as tendências de oferta e demanda, a falta pode chegar a 500 mil em 2030.
A escassez resulta de uma cadeia que começa na formação básica. O número de matrículas em engenharia caiu cerca de 30% entre 2015 e 2024, enquanto a evasão universitária é elevada. Além disso, parte dos formados deixa a profissão para buscar áreas consideradas mais atraentes, principalmente o mercado financeiro.
Formação dentro das empresas
Pesquisa analisada por Paul Ferreira e Paulo Tadeu de Resende, da FGV EAESP, mostra que 67% das empresas consultadas classificavam como difícil ou muito difícil encontrar profissionais preparados. Em 45% delas havia vagas abertas por falta de candidatos aptos.
Nesse cenário, as empresas podem precisar desenvolver internamente competências que não encontram no mercado. O upskilling amplia as habilidades de quem permanece em funções semelhantes; o reskilling prepara o trabalhador para atividades diferentes.
Entre as empresas avaliadas na pesquisa, iniciativas de qualificação e requalificação estavam relacionadas a ganhos de produtividade em 59% dos casos. Os programas também apareceram associados à retenção de funcionários em 57% das empresas e à redução do risco de contratações inadequadas em 39%.
A estratégia inclui identificar previamente as lacunas de competências, considerar o potencial de aprendizado nas contratações, manter treinamentos contínuos, organizar a integração de novos funcionários e criar caminhos de desenvolvimento profissional.
Educação na agenda econômica
O Pisa deveria integrar as discussões empresariais e eleitorais, com cobrança por metas objetivas de aprendizagem durante um mandato. Também é necessário aproximar o ensino médio, a educação técnica e as necessidades produtivas.
A formação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática, conhecida pela sigla STEM, é outro ponto. A falta de engenheiros mostra que anúncios de investimentos em infraestrutura, transição energética, semicondutores, data centers e inteligência artificial precisam considerar a disponibilidade de profissionais para executar essas atividades.
O setor privado já arca com parte do custo de preparar trabalhadores que chegam ao mercado sem as competências exigidas. Ampliar o alcance e o retorno social desses investimentos pode fazer parte do debate.
Os resultados do Pisa 2025 não indicam uma mudança repentina, mas a permanência do Brasil em um nível baixo de desempenho educacional ao longo de uma década. Empresas podem treinar e requalificar seus funcionários, mas a redução da defasagem de competências no país depende da melhoria da escola.








