Drauzio Varella afirmou que o uso de inteligência artificial para imitar sua voz e sua imagem em anúncios de remédios falsos representa um risco à saúde pública. No episódio comemorativo de número 100 do Futuro Talks, o médico também defendeu que as faculdades de medicina reforcem o pensamento científico e que a tecnologia seja usada para ampliar o atendimento, sem substituir a relação entre profissionais e pacientes.
As falsificações, segundo Varella, são usadas por estelionatários para promover medicamentos. Ele relatou que já tentou retirar esse tipo de conteúdo das plataformas, mas encontrou dificuldades. Também criticou a circulação de pseudociência, notícias falsas e promessas de tratamentos milagrosos. Para ele, é necessário ensinar a população a desconfiar de métodos que não tenham respaldo em estudos complexos e centros de pesquisa.
Comunicação de saúde
A trajetória de Varella na comunicação começou durante a epidemia de Aids, quando ele passou a falar sobre a doença no rádio. O médico contou que, naquele período, muitos profissionais resistiam a aparecer nos meios de comunicação. Depois, trabalhou na televisão e levou a divulgação médica para a internet e as redes sociais.
Ele atribuiu parte de sua preparação para explicar temas complexos aos anos em que foi professor de cursinho. O Objetivo chegou a reunir 10 mil alunos para Medicina, em salas com 400 estudantes. Essa experiência, disse, ajudou a desenvolver clareza e adaptação da linguagem para diferentes públicos.
O médico também relatou que participou da criação de um site no ano 2000 e precisou aprender novas formas de comunicação com profissionais mais jovens. Nas redes sociais, passou a segmentar as mensagens e a torná-las mais curtas, considerando o público a que cada informação se destinava.
Formação e tecnologia
Ao comentar o aumento do número de cursos de medicina, Varella disse que a principal preocupação não é a quantidade de médicos, mas a qualidade da formação e a concentração dos profissionais nos grandes centros. Ele defendeu avaliações ao longo da graduação, com possibilidade de bloqueio de novas matrículas em instituições que apresentem desempenho insuficiente.
O médico afirmou que, até 2030, o número de médicos no Brasil pode dobrar e que, em 2035, o país poderá ter mais de um milhão de profissionais em atividade. Hoje, segundo ele, há ao redor de 500 mil. Varella também mencionou que o estado de São Paulo formava 400 médicos por ano quando ele entrou na faculdade.
Para Varella, a telemedicina pode apoiar equipes em locais sem médicos residentes. A inteligência artificial também pode ajudar na análise de informações científicas e no suporte às decisões, mas não deve substituir o médico. A profissão exige adaptar o conhecimento à história, às condições de vida e à forma de pensar de cada paciente.
Organização do SUS
Sobre o Sistema Único de Saúde, Varella afirmou que não é necessário criar uma nova estrutura. Na avaliação dele, o país já tem a Estratégia Saúde da Família, os agentes comunitários, as Unidades Básicas de Saúde e os hospitais regionais. O desafio está em fazer essa rede funcionar de maneira organizada, com prevenção e acompanhamento contínuo.
Ele destacou o papel dos agentes comunitários e disse que as equipes de atenção básica podem reduzir entre 80% e 90% das internações hospitalares quando atuam antes do agravamento dos problemas. O médico relacionou essa necessidade ao envelhecimento da população e ao crescimento das doenças crônicas.
Varella citou a hipertensão e o diabetes como problemas que exigem acompanhamento. Segundo ele, metade das pessoas que chegam aos 60 anos apresenta hipertensão arterial, enquanto os casos de diabetes podem chegar a 20 milhões ou mais.
O médico reconheceu que o SUS é subfinanciado, mas afirmou que a falta de recursos não explica sozinha as dificuldades do sistema. Para ele, também faltam continuidade administrativa, organização e uma política pública de saúde. O fortalecimento da atenção básica, a valorização dos agentes comunitários e o uso racional dos hospitais deveriam estar entre as prioridades dos gestores.








