Os Estados Unidos proibiram a importação de uma ampla variedade de bebidas alcoólicas, motocicletas e laticínios do Canadá, em uma nova escalada da disputa comercial entre os dois países. As restrições entram em vigor em 29 de setembro e foram divulgadas no site da Casa Branca.
A decisão ocorreu depois que tarifas retaliatórias canadenses sobre produtos dos EUA começaram a valer. Ottawa adotou as medidas após Washington impor, no mês passado, tarifas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em mercadorias canadenses, depois do fracasso de várias rodadas de negociação.
As novas proibições americanas abrangem cerveja, diferentes tipos de vinho, uísque, bourbon, rum, vodca, vermute, tequila, mezcal e conhaque. Também foram incluídos produtos como proteína de soro de leite, melaço invertido, melaço de cana e cerveja sem álcool. Alguns tipos de queijo passaram a integrar uma lista sujeita a tarifa de 50%, mas não foram proibidos.
Produtos de papel, alumínio, madeira, móveis e iluminação também foram acrescentados à relação de itens tarifados.
Retaliação canadense
As contramedidas do Canadá alcançam aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos dos Estados Unidos, com taxas entre 15% e 50%. A lista inclui aço, móveis, roupas e eletrônicos. Autoridades canadenses afirmaram que o objetivo é pressionar econômica e politicamente o governo americano.
As tarifas podem afetar setores de Estados considerados competitivos nas eleições de meio de mandato dos EUA, em novembro, como Michigan e Ohio. Apesar de o volume atingido ser pequeno diante do comércio total entre os dois países, analistas demonstram preocupação com os efeitos sobre o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA), que substituiu o Nafta.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, defendeu um afastamento maior em relação aos Estados Unidos, principal parceiro comercial do Canadá. Em um vídeo publicado no YouTube, ele afirmou: “Temos tudo de que precisamos para mudar de rumo e prosperar”.
O ministro canadense responsável pelo comércio bilateral com os EUA, Dominic LeBlanc, criticou as novas medidas americanas e disse estar em contato com o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. Uma autoridade americana afirmou que os dois devem voltar a conversar nos próximos dias para avaliar uma alternativa.
Automóveis e empresas
A ameaça de Donald Trump de elevar de 25% para 50% as tarifas sobre automóveis canadenses em 1º de janeiro continua em vigor, segundo uma autoridade dos Estados Unidos.
Trump também afirmou que a fabricante canadense de jatos privados Bombardier não poderá mais vender aeronaves nos Estados Unidos caso não passe a produzi-las no país. Em outra medida, determinou que a General Services Administration se coordene com o Representante de Comércio dos EUA para retirar produtos canadenses das listas de adjudicações da agência, a menos que Ottawa restabeleça a reciprocidade para agricultores e empresas americanas.
As tarifas americanas aplicadas no mês passado atingiram vinho, móveis, laticínios, cimento, vestuário, varas de pesca e equipamentos de hóquei. Elas cobrem US$ 20 bilhões, ou 5%, das exportações canadenses para os Estados Unidos.
A Sapporo, proprietária da Sleeman Breweries, sediada em Ontário, avalia transferir uma quantidade limitada da produção de bebidas não alcoólicas do Canadá para os EUA por causa dos riscos tarifários. A empresa ainda não tomou uma decisão final. O Canadá representa mais da metade das vendas de cerveja da Sapporo no exterior.
Pressão sobre o acordo comercial
Dados dos governos canadense e americano indicam que o Canadá enviou quase 68% de suas exportações totais para os Estados Unidos neste ano. Cerca de 80% desse volume passou sem impostos devido às isenções do USMCA. As tarifas impostas no mês passado, baseadas em uma lei americana da era da Grande Depressão, não permitem que Ottawa aplique essas isenções.
A disputa aumentou a incerteza sobre investimentos e crescimento e levantou dúvidas sobre o futuro do acordo que sustenta o comércio norte-americano há décadas. Michael Harvey, diretor-executivo da Canadian Agri-Food Trade Alliance e integrante do comitê consultivo de Carney para relações econômicas bilaterais com os EUA, afirmou: “O que nos preocupa é uma espiral de escalada”.
Pesquisas recentes indicaram aumento no apoio a Carney no Canadá. Uma sondagem divulgada na terça-feira mostrou aprovação de 62% para seu desempenho, alta de 11 pontos em relação a agosto. Nos Estados Unidos, 20% dos entrevistados aprovaram as tarifas de Trump sobre produtos canadenses.
No mês passado, Trump também ameaçou elevar para 50%, a partir de 1º de janeiro, as tarifas sobre carros, caminhões e peças automotivas do Canadá. Ele ainda assinou uma ordem executiva para renomear o Lago Ontário como Lago América.








